A soberba é um vício antigo. Atravessou impérios, religiões e repúblicas sem pedir visto. Na política, ela costuma vestir farda moral: não erra, não pede desculpas, não admite dúvida.
Um fertilizante para o bolsonarismo, que, mais que um movimento, revelou-se um estado de espírito moldado por essa certeza absoluta de que quem grita mais alto está mais perto da verdade.
Um estado de espírito que não nasceu do nada, apesar do nada, do vazio cerebral que representa. Esse fertilizante, a soberba, encontrou terreno fértil num país historicamente acostumado a mandar e obedecer, a falar grosso com os de baixo e a baixar a cabeça diante dos de cima.
O discurso bolsonarista apenas retirou o verniz civilizatório. A ignorância virou coragem, o ataque se transformou sinceridade, o desprezo passou a ser virtude. Ser rude virou prova de autenticidade; ser arrogante, sinal de força.
Na história, a soberba sempre se alimentou da ideia de exceção. Reis acreditavam governar por direito divino; ditadores se julgavam intérpretes únicos da nação. O bolsonarismo seguiu a cartilha, adaptada à era digital. O líder nunca erra, os seguidores nunca questionam, os fatos são flexíveis. A realidade passa a ser aquilo que confirma a crença. O resto é conspiração, imprensa inimiga, ciência corrompida.
O mais perverso da soberba é sua dimensão coletiva. Ela oferece pertencimento a quem se sente descartado, mas cobra um preço alto: o abandono da empatia e do pensamento crítico. O outro deixa de ser cidadão e passa a ser inimigo. A política, que deveria organizar divergências, vira ringue moral. Quem discorda não pensa diferente, é mau caráter, comunista, traidor, corrupto por definição.
A soberba bolsonarista também se manifesta na recusa da complexidade. Problemas estruturais ganham soluções simplórias, quase infantis. Armas substituem políticas públicas, slogans ocupam o lugar de projetos, a violência simbólica prepara o terreno para a real. Tudo embalado por uma nostalgia autoritária, como se o passado fosse mais honesto apenas porque era mais silencioso.
Mas a soberba tem um defeito antigo: ela não aprende. Ignora alertas, despreza limites, ri das consequências até que elas batem à porta. A história mostra que movimentos fundados na certeza absoluta costumam tropeçar na própria incapacidade de ouvir.
Quando o mundo não se curva, a soberba se radicaliza ou se vitimiza. Às vezes, faz as duas coisas ao mesmo tempo.
O maior legado do bolsonarismo é esse espelho desconfortável que nos obriga a encarar um traço nacional que preferíamos esconder. A soberba não é monopólio de um grupo, mas nele encontrou voz, megafone e aplauso. Combatê-la exige mais do que derrotar líderes; exige reaprender a dúvida, a escuta e a humildade democrática.
Nenhuma nação se sustenta por muito tempo acreditando que gritar é pensar e que a soberba pode substituir a razão. É quando cai em si.
Aloisio Lobo é jornalista
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