João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

NIPONISMO

Por: | 09/01/2026

NIPONISMO

João Batista de Brito


De onde vinha seu gosto pelo Oriente, nem ele sabia. Nem queria saber. Nem precisava. Talvez fosse influência do cinema, com todos aqueles filmes recentes sobre a vida no Japão. “Os sete samurais”, “Casa do chá do luar de agosto”, “Sayonara”, e outros mais.

Ninguém podia negar que o Japão era o país mais esplendoroso do planeta, e que suas gueixas eram as mulheres mais sensuais do universo. Seu sonho era viajar, ir embora para o Oriente. Vestir quimono, comer sentado no chão, viver entre cerejeiras em flor, e escrever haicais

Sonho naturalmente impossível. Nascido e criado em pleno nordeste brasileiro como é que ia chegar lá? E mais: numa cidade pequena e provinciana como a João Pessoa dos anos cinquenta.

Cursando o secundário, já estava nos seus dezessete anos e não se decidia a namorar. De boa aparência, as garotas lhe davam bolas, e ele não pegava ninguém. Os amigos estranhavam e ele nem aí. Não conseguia ver uma que tivesse ao menos um traço de gueixa.

Gostava de desenhar e tinha, em casa, pastas e mais pastas, todas com desenhos relativos ao Japão. Sobretudo, rostos, e rostos com traços orientais. Só sabia desenhar olhos bem apertadinhos, e sua coleção tomava as quatro paredes de seu quarto.

Conhecendo seu gosto, uma tia sua que morava em São Paulo, uma vez lhe mandara um par de bonecos, um samurai e uma gueixa, que ele pôs a decorar o quarto, numa prateleira bem acima do encosto da cama.

Um dado promissor apareceu numa certa tarde de inverno. Tinha ido ao cinema, ver uma comédia com uma atriz americana que tinha traços nipónicos, a Shirley MacLaine, e na saída encontrou um colega do colégio.

Já sabe da nova? O colega perguntou. Ele: não, o que foi?

Chegou a João Pessoa uma família japonesa, que vai morar ali na Lagoa. O cara é empresário e parece que quer instalar uma joalharia por aqui – disse o amigo.

Uma família? Sim, mas até agora só se conhece o casal, o marido e a mulher. Os filhos devem vir depois.

Obviamente, a notícia mexeu com seu juízo. E passou a investigar tudo sobre a recém chegada família nipônica. Os jornais da cidade confirmavam o que o colega havia dito, mas isso não era muita coisa.

Indo ou voltando do colégio, assumiu o hábito de passar na porta da residência, mas nunca via ninguém. Ninguém que interessasse. Só a dona da casa, uma senhora idosa, e uma empregada, que nem japonesa era. E sua gueixa, onde se escondia?

Já estava achando que o casal não tinha prole, quando avistou o rapaz no jardim da casa. Ficou animado, mas só por um tempo. Logo constatou, que o rapaz era filho único. Um rapaz. Não sabia se se alegrava ou ficava triste. Era Oriente, mas, no masculino.

De todo jeito, por um bom tempo ficou seguindo o rapaz de longe. Ele passava na calçada do Lyceu, no seu caminho para o Pio X. Seria bom ter um amigo nipônico e poder trocar ideias sobre o país, os costumes, as crenças... E confidenciar seu sonho de um dia conhecer uma gueisha, coisas assim...

Até então, só avistara o rapaz de uma certa distância, mas um dia o viu bem de perto. Foi numa tarde de sol, numa fila do cinema Rex. Estava no final da fila quando o rapaz chegou. Ao virar-se para trás, viu seu rosto em close. E, meu Deus do céu, o rapaz era a cara esculpida e encarnada do ator Toshiro Mifune, simplesmente o homem mais desesperadamente belo do mundo.

Trocaram um sorriso sem palavras. Não quis admitir, mas ficou perturbado. Extremamente perturbado. Por que tanta beleza num homem? Durante a sessão, não conseguia se concentrar na tela. Duas ideias se atropelavam no seu espírito: uma, que vinha do seu ser animal, era abordar o rapaz na saída e assegurar sua amizade. A outra, que vinha de seu ser racional, era sair antes de a sessão terminar e nunca mais seguir o rapaz nem mesmo de longe. O que devia fazer?

Aparentemente optou pela segunda alternativa, pois, na manhã do dia seguinte a sua mãe tomou um susto ao entrar no seu quarto, para a faxina diária: não havia mais nada relativo ao Japão. Tudo, absolutamente tudo, tinha sido rasgado, queimado, e jogado no lixo.

Intrigados, os familiares queriam saber o que houve, mas sua resposta era tão desconcertante quanto enigmática: nada de mais, apenas resolvi assumir que amo o Brasil.


FONTE: Facebook - Acesse

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