A Merda
Por Aloísio Lôbo (*)
Como tudo começou a sair do controle?
Lembro-me bem que em 2013, quando na redação da então Tv Cultura do Amazonas, senti o mundo sendo tomado por uma sensação difusa de esgotamento, vi as ruas se encheram de gente com cartazes improvisados e palavras de ordem contraditórias e uma certeza compartilhada: algo estava errado. Do Brasil à Turquia, do Egito à Espanha, dos Estados Unidos à Ucrânia, multidões protestavam contra tarifas, corrupção, autoritarismo, desigualdade, elites políticas e econômicas. Cada país tinha sua pauta, mas o mal-estar era global.
Parecia o prenúncio de uma primavera democrática tardia. Parecia.
No Brasil, junho de 2013 começou com vinte centavos e terminou com a implosão simbólica da política tradicional. Partidos expulsos das manifestações, imprensa hostilizada, instituições colocadas sob suspeita. O discurso antipolítica ganhou corpo, musculatura e raiva. A ideia de mediação virou palavrão. O grito difuso das ruas não construiu um projeto; abriu um vazio.
E vazios não permanecem vazios por muito tempo.
Nos Estados Unidos, o Occupy Wall Street denunciou a desigualdade obscena e o poder do 1% sobre a democracia. Mas, assim como em outros lugares, a crítica estrutural não se traduziu em organização política duradoura. O ressentimento social, sem canal progressista consistente, foi capturado por narrativas mais simples, emocionais e identitárias. A frustração econômica encontrou refúgio no nacionalismo.
Donald Trump não surgiu do nada. Ele é herdeiro direto daquela descrença generalizada nas instituições, da ideia de que “o sistema está contra você”. Apenas trocou a denúncia do capital financeiro por inimigos mais convenientes: imigrantes, globalistas, imprensa, ciência, acordos internacionais. Ofereceu não uma solução, mas um culpado. E isso, em tempos de convulsão social, costuma bastar.
Jair Bolsonaro percorreu caminho semelhante, adaptado ao trópico. Soube transformar o caos simbólico de 2013 em plataforma política anos depois. Vestiu-se de antissistema sendo produto do sistema. Explorou o medo, a insegurança, o ódio à política e a nostalgia de uma ordem que nunca existiu para a maioria. Onde havia crítica legítima à corrupção e às desigualdades, ele plantou autoritarismo, militarismo e desprezo pela democracia.
O traço comum entre Trump, Bolsonaro e outros líderes da extrema direita global não é a originalidade, mas a capacidade de sequestrar o descontentamento. As convulsões sociais de 2013 expuseram falhas reais do modelo neoliberal e das democracias representativas, mas também mostraram a fragilidade da organização popular quando não há projeto, liderança coletiva e horizonte claro.
A extrema direita compreendeu algo que a esquerda institucional demorou a entender: em tempos de fratura social, emoção vale mais que programa; identidade vale mais que dados; medo mobiliza mais que esperança abstrata. Enquanto uns falavam em reformas complexas, outros ofereciam slogans, inimigos e promessas de força.
2013 não criou Trump nem Bolsonaro, mas abriu as comportas. Transformou indignação em matéria-prima política disponível para quem soubesse moldá-la. E eles souberam. Muito bem.
A pergunta que permanece ecoando nas ruas vazias daquela década é simples e incômoda: quem aprenderá com esse erro histórico antes que a próxima convulsão social produza líderes ainda mais perigosos? Se isso é possivel…
(*) jornalista
Em tempo: estou impedido de responder a qualquer comentário no face. Devo ser um herege.
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