O bonde da história, dizia alguém, às vezes dá marcha à ré. E, na última quarta-feira, 7 de janeiro de 2026, o motorista desse bonde resolveu não só frear bruscamente, mas descer e ir embora, deixando os passageiros à própria sorte. O presidente Donald Trump, com a canetada de uma ordem executiva, determinou a retirada dos Estados Unidos de 66 organizações internacionais, sendo 31 delas vinculadas diretamente às Nações Unidas. A justificativa? Elas "atuam de maneira contrária aos interesses nacionais" e promovem "agendas globalistas". O gesto, visto por diplomatas como o maior movimento isolacionista americano desde o pós-Guerra, não é ficção. Está lá, na proclamação da Casa Branca, com lista de entidades que vão do clima aos direitos humanos.
A peça principal: o fato é real
A notícia, portanto, não é fake. Trump realmente assinou. E, ao fazê-lo, abalou o pilar que sustentava o sistema multilateral: o dinheiro e a influência americana. O G1, a Gazeta do Povo, a Xinhua, todos confirmam. A primeira parte do texto que me enviaram é, infelizmente, a pura e crua realidade.
Os coadjuvantes entram em cena (com algum exagero no roteiro)
É aí que o roteiro começa a ganhar cores mais fortes, talvez um pouco além da realidade. Diz o texto que, "poucas horas após o anúncio, a China iniciou contatos com países da África, Ásia e América Latina". A reação chinesa oficial, de fato, foi rápida: no dia seguinte, Pequim reafirmou seu apoio ao multilateralismo e à ONU. É plausível que diplomatas chineses tenham ligado para aliados. Mas a narrativa de uma "oferta estável" imediata soa mais como uma projeção estratégica do que um fato noticiado. A China aproveita a janela, sim, mas o anúncio formal foi de princípios, não de cheques.
Já a Rússia, segundo analistas, mantém seu peso relevante no Conselho de Segurança, espaço onde sempre defendeu soberania e se opôs a intervenções. Com o poder de veto americano ainda formalmente intacto, o que muda é o equilíbrio de forças nas discussões. A leitura de que Moscou "aumentou o uso" do Conselho para reforçar narrativas é mais uma análise de tendência do que uma manchete comprovada.
O cenário que fica: um palco em reforma
O resto do texto é uma colcha de interpretações, algumas óbvias, outras agudas. A apreensão europeia? Natural. Quem pagará a conta? O alerta dos economistas sobre normas comerciais migrando para padrões chineses? Uma consequência lógica do vácuo. A ONU não "caiu" nas mãos de uma coalizão oriental, como alguns temem. O que se vê é uma redistribuição de influência, um jogo multipolar onde cada um puxa a brasa para sua sardinha.
Conclusão: a crônica de um adeus
No fim das contas, a crônica que podemos escrever hoje é a do adeus. Um adeus calculado, soberano, isolacionista. Trump, como um proprietário que acha que está pagando demais pelo condomínio, resolveu se mudar. O problema é que o condomínio é o mundo. E, no apartamento vazio, já se ouvem os passos de novos inquilinos, arrumando os móveis, reescrevendo as regras de convivência.
A pergunta que fica, é: quando o bonde da história decide voltar, será que ainda haverá trilhos? Ou teremos todos que aprender a andar de carroça chinesa, em estradas vigiadas por câmeras russas, sob um céu que ninguém mais quer proteger? O fato é real. As consequências, meu caro leitor, estamos apenas começando
(Estou de castigo, não posso responder aos vossos comentários, até à segunda ordem facebuquiana.)
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