Aloísio Lobo
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Aloísio Lobo

UM SINAL

Por: | 21/01/2026


Por Aloísio Lôbo  (*)


  Fiquei preso numa passagem de ano. Preso não por grades ou algemas, mas por uma sucessão de pequenos imprevistos que, juntos, montaram um cárcere respeitável. A rua fechada, o trânsito imóvel, o celular sem sinal, a promessa de “é rapidinho” que atravessou dezembro e estacionou em janeiro. O relógio avançava com a frieza de quem não se solidariza com expectativas humanas.

  Enquanto o mundo contava regressivamente, eu contava histórias. Dentro do carro parado, numa sala de espera improvisada da vida, observei pessoas que também haviam sido capturadas pela virada: o casal que discutia em silêncio, o motorista que batucava no volante como se pudesse acelerar o tempo, a criança que já dormia antes mesmo do ano nascer. Ninguém ali parecia preparado para admitir que o futuro chegou sem pedir licença, nem soltar fogos.

  A passagem de ano, quando nos encontra presos, tem vocação pedagógica. Ela nos ensina que o tempo não negocia com desejos, que não existe atalho simbólico para recomeços e que janeiro não traz manual de instruções. O ano muda mesmo se a gente estiver parado, mesmo se não houver brinde, mesmo se o abraço for substituído por um suspiro cansado.

  Do lado de fora, explodiam fogos. Do lado de dentro, explodiam reflexões. Pensei nos que ficaram presos em hospitais, plantões, cozinhas industriais, cabines de vigilância, ônibus noturnos. Pensei nos que estão presos em trabalhos que odeiam, em relações que já terminaram sem aviso prévio, em esperanças adiadas por mais um calendário. A virada é democrática apenas na aparência; por dentro, ela revela desigualdades silenciosas.

  Quando finalmente o carro andou, já era ano novo fazia tempo. Nenhum anjo apareceu, nenhuma resolução se impôs. O que veio foi uma certeza incômoda e honesta: seguimos adiante como sempre seguimos, carregando pendências, sonhos amassados e a estranha habilidade de sobreviver ao simbólico.

 O verdadeiro rito da passagem não está na contagem regressiva, mas nesse instante em que percebemos que o tempo passou apesar de nós, e seguimos vivos, um pouco mais lúcidos, um pouco menos iludidos, atravessando o ano como quem atravessa a rua quando o sinal abre sem aviso.

(*) jornalista


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