Paura?
Por Aloísio Lôbo (*)
Estamos repetindo o prólogo das tragédias do século XX ou ainda somos capazes de rasgar o roteiro antes do primeiro tiro?
As duas grandes guerras mundiais não nasceram do acaso, nem de um único gesto tresloucado. Foram paridas lentamente, como se o mundo tivesse aceitado, com paciência mórbida, que a violência fosse uma forma legítima de reorganizar a ordem internacional. A Primeira Guerra brotou de um caldo espesso de nacionalismos ressentidos, disputas imperiais, corrida armamentista e alianças automáticas que transformaram um atentado local em incêndio global. A Segunda veio como continuação mal resolvida da primeira, alimentada pela humilhação econômica, pelo revanchismo, pela falência das instituições multilaterais e pela normalização do autoritarismo como solução política.
O traço comum entre ambas não foi a pólvora, foi o silêncio cúmplice. O silêncio diante da desigualdade crescente, do discurso de ódio convertido em patriotismo, da ideia de que alguns povos valem menos do que outros. As guerras começaram muito antes das trincheiras e dos campos de extermínio; começaram quando a diplomacia foi substituída pela ameaça, quando o medo virou método de governo e quando a economia passou a ser usada como arma.
O mundo de hoje olha para esse espelho rachado e finge não reconhecer o próprio rosto. Vivemos novamente uma era de rearmamento acelerado, de disputas por zonas de influência, de guerras regionais que se acumulam como brasas acesas. A diferença é que agora o planeta é menor, mais conectado e mais frágil. Uma sanção derruba países inteiros, um míssil hipersônico atravessa continentes, uma fake news desestabiliza democracias sem disparar um tiro.
Paralelos incômodos: a ascensão de líderes que desprezam instituições, a erosão do multilateralismo, o enfraquecimento de organismos internacionais, a banalização da violência como linguagem política. Assim como nos anos 1920 e 1930, cresce a sensação de que acordos são obstáculos e que a força resolve mais rápido. O conflito deixa de ser exceção e passa a ser ferramenta de gestão.
E estamos entrando em mais um conflito mundial? A pergunta não exige futurologia, mas honestidade histórica. As guerras mundiais não foram declaradas de uma vez; elas se impuseram quando o mundo percebeu que já estava dentro delas. Hoje, o risco não é apenas de uma guerra tradicional, mas de um conflito difuso, permanente, tecnológico, econômico e informacional, no qual todos participam, mesmo sem saber.
Evitar esse caminho exige decisões que quase ninguém no poder parece disposto a tomar. Revalorizar a diplomacia como prática cotidiana, não como cerimônia protocolar. Fortalecer instituições internacionais com poder real, e não apenas simbólico. Combater desigualdades globais que alimentam ressentimentos nacionais. Regulamentar o complexo industrial-militar e tecnológico, que lucra com o caos e vende medo como mercadoria. E, sobretudo, recuperar a ideia de que humanidade não é retórica, é política pública.
A história não se repete mecanicamente, mas ela rima. E as rimas atuais soam perigosamente familiares. A pergunta que fica não é se o mundo pode entrar em outra guerra de proporções globais, mas se teremos coragem de interromper o verso antes que ele se complete.
(*) jornalista
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