Aloísio Lobo
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Aloísio Lobo

CARAS E BOCA


Por: | 28/01/2026


Por Aloísio Lôbo (*)

   O que denunciam os tiques de um homem poderoso quando o mundo insiste em chamá-los de excentricidade?

  Donald Trump pisca demais, faz caretas involuntárias, aperta os lábios como quem tenta conter algo que quer escapar. As mãos, sempre elas, desenham no ar um teatro próprio, repetitivo, quase hipnótico. São tiques, dirão os benevolentes. Manias. Idiossincrasias de um líder performático. Mas desde quando o poder permite ingenuidade na leitura dos gestos?

  A história ensina que o corpo fala quando a linguagem política mente. Os tiques não são apenas espasmos musculares; são pequenas rachaduras por onde escapa a tensão de quem governa pela força da imposição e pelo prazer do confronto. Hannah Arendt, ao refletir sobre a banalidade do mal, não descrevia monstros espumando ódio, mas burocratas eficientes, homens comuns, ajustados à engrenagem da crueldade. Trump não é burocrata, é espetáculo. Ainda assim, partilha da mesma raiz: a normalização do dano.

  O tique revela o curto-circuito entre a imagem que se quer projetar e a realidade que insiste em contrariar. Quando Trump franze o rosto diante de um aliado histórico ou revira os olhos ao ser confrontado por dados, não é apenas impaciência. É a irritação primária de quem não tolera limites, nem fatos, nem o outro. O mal, nesse caso, não surge como plano filosófico; brota como reflexo.

 Traços inequívocos de infantilidade existem nesses gestos, e isso não os torna inofensivos. Pelo contrário. A infância prolongada no poder costuma ser terreno fértil para a crueldade. O menino que não aceita perder o brinquedo quebra o brinquedo do outro. O presidente que não aceita a complexidade do mundo ameaça tarifas, muros, sanções, guerras comerciais e simbólicas. O corpo antecipa o ato político.

   Os tiques também funcionam como distração. Enquanto analistas comentam o movimento das mãos ou a careta fora de hora, decisões são tomadas, acordos são rasgados, o direito internacional é tratado como detalhe decorativo. O mal adora o ruído, porque o ruído confunde. E Trump é um maestro do ruído, regendo com o corpo aquilo que sua retórica já tornou agressão cotidiana.

  Não se trata de patologizar um indivíduo, nem de reduzir a política à psicologia barata. Trata-se de reconhecer que certos gestos se repetem na história quando o poder se afasta da empatia. Os tiques de Trump dialogam com outros corpos do passado, outros líderes que também rangiam os dentes diante do dissenso, que tremiam não de medo, mas de fúria contida.

  Sinto que o mais inquietante seja perceber que esses sinais estão à vista de todos e, ainda assim, são tratados como folclore. Rimos, imitamos, viralizamos. Enquanto isso, a maldade humana segue seu curso mais eficiente: aquela que se apresenta como normal, televisiva, quase engraçada.

  Quando o corpo do poder treme, não é o corpo que deve nos preocupar, mas aquilo que ele anuncia. Afinal, quantas tragédias já começaram com um gesto repetido, ignorado, naturalizado?

Heim?

(*) jornalista


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