ÀS AVESSAS
João Batista de Brito
Festejo não houve. Era um casamento combinado, decidido pelas famílias dos noivos, e não havia razão para festa. Os nubentes mal se conheciam, e nenhum interesse tinham um no outro. Estávamos no interior da Paraíba, e naquele tempo, anos trinta do século XX, esse tipo de união imposta era comum, se financeiramente conveniente às duas famílias envolvidas.
Ao casal foi doado um sítio afastado da cidade, onde deviam cultivar um pouco de agricultura, talvez criação de aves, coisas assim, e conviver um com o outro como pudessem. Como eram ainda jovens esperava-se a geração de uma prole que estendesse os laços das duas famílias.
A situação não seria absurda, se ao menos os nubentes alimentassem um mínimo de simpatia mútua. Mas este não era o caso. Não apenas eram dois estranhos, como não tinham absolutamente atração alguma um pelo outro. Tanto é assim, que, chegados ao novo lar, sem precisar de consultas, acomodaram-se em quartos diferentes. Ela o achava desajeitado; ele a achava sem graça.
Pela manhã, ela acordava, fazia o café que os dois, sem trocar palavras, tomavam na mesma mesa. Depois disso, ele se mandava para o mato, cuidar dos bichos e das plantações, e ela ficava em casa, com as tarefas domésticas.
Um momento crítico era à noite, os dois no terraço da casa, cada um na sua rede, fitando a mesma paisagem de sempre, sem ter o que conversar. Na verdade, sem vontade nenhuma de conversar. Cada um entregue às lembranças de suas respectivas vidas de solteiro, quando pelo menos tinham irmãos, irmãs, ou amigos com quem se divertir.
E assim decorria a vida monótona e solitária dos dois, isolados naquele rincão triste, sem contato com o mundo. E pior, sem perspectivas de mudança. Dias havia em que ela acordava com cara de choro, e ele, com jeito aguado de quem queria morrer. Mas não tocavam no assunto. Tinha que ser assim: fazer o quê? Quando falavam, era sobre as coisas práticas do sítio, as estritamente necessárias.
Pois bem, um certo fim de tarde, vinha ele da roça com seu machado nas costas quando viu o que não contava ver. Feito todo de palha, o banheiro ficava afastado da casa e, lá estava ela, descuidada de fechar a porta, tomando banho de cuia, a água do tanque escorrendo sobre seu corpo nu. De onde estava, ele parou e ficou observando o banho por um tempo, sem que ela notasse. Nunca pensou que aquele corpo alvo pudesse ser tão bonito. Como era possível que nunca tivesse notado? Naquela noite, ele dormiu inquieto, pensando em coisas estranhas.
A partir daquela ocasião, começou a fitar a esposa mais de perto e com mais cuidado. Aos poucos foram lhe vindo detalhes que nunca notara. Não era exatamente bonita, mas seus olhos tinham um brilho diferente; seus lábios carnudos pareciam bons de beijar; entrevistos no roupão, seus seios, pareciam convidativos. Sem falar de uma certa maneira de respirar fundo que lhe abria as narinas de modo sensual. Apesar do cuidado em escondê-las, essas impressões foram crescendo e se somando, sem que ele pudesse evitar, e nesse crescimento e nessa soma, mexendo com seus nervos e seu juízo.
Até que numa noite de lua cheia, os dois estirados nas duas redes, ele descontrolou-se: sem saber o que fazia, levantou-se de súbito e jogou-se sobre a rede dela com sofreguidão incontida. Com o peso, a rede cedeu e os dois foram ao chão do terraço, ele sempre por cima dela, que reagia com empurrões e gritos de protestos. Mas, pouco a pouco, esses empurrões foram virando afagos e esses gritos, gemidos de prazer. Daí a pouco, os dois estavam entrelaçados, livrando-se célere das roupas, fazendo um amor selvagem que nem dois enlouquecidos.
Depois daquela noite, ele mudou-se para o quarto dela. Passaram dias e noites assim, desfrutando o corpo um do outro, sem trocar palavras, de alguma forma, com vergonha de tratar desse novo assunto. Com o tempo é que a timidez foi sendo vencida e passaram a conversar sobre eles mesmos, a vida que levavam, coisas a fazer a partir de agora... Depois da descoberta dos corpos, estava vindo a descoberta das almas, aventura igualmente estimulante. Surpreendentemente, deram-se conta de que tinham várias afinidades, sim, e passaram a lamentar o tempo de indiferença e ignorância mútua.
Não admira que tenham se apaixonado, paixão que durou a vida inteira.
O amigo que me contou a história me garantiu que o casal teve vários filhos. Embora criados no sitio, esses filhos logo ganharam o espaço das grandes cidades e realizaram grandes coisas. Já idosos, os pais um dia lhes fizeram um pedido final: queriam ser enterrados ali mesmo, no sítio em que viveriam até morrer. Onde exatamente? No terraço da velha casa, só eles sabiam por quê.
E assim foi feito.
Achei curioso o nome que o meu amigo deu à história: “Romeu e Julieta às avessas”.
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