
A Geometria do Vazio
Existe um vazio que tem peso. Um vazio que, paradoxalmente, é cheio. Cheio de ecos, de sombras, de perfumes apagados. Esse vazio tem um nome que só nós, condenados à lucidez do sentimento, conhecemos: saudade.
Vamos dissecar a palavra, como quem abre um relógio antigo para ver suas engrenagens de dor. “Saudade” vem do latim solitatem, solidão. Mas não essa solidão física, do quarto vazio. É a solidão da alma quando ela sente falta de um pedaço de si que ficou noutro lugar, noutro tempo, noutra pessoa. É um estado de exílio interno. Você está aqui, inteiro, mas ao mesmo tempo amputado. Sente o frio no membro fantasma da memória.
A saudade é a mais humana das contradições. Ela dói, mas nós a cultivamos. Revivemos o passado não como foi, mas como gostaríamos que tivesse sido. Banhamos as lembranças num líquido dourado, o “saudosismo”, e bebemos esse licor amargo-adocicado que nos embriaga de melancolia. O cheiro do café da avó, o barulho específico da porta da casa de infância, a textura do uniforme escolar, a canção tola que tocava no rádio durante um verão que nunca mais acabou… São fragmentos. Cacos de um espelho quebrado em que tentamos, em vão, nos reencontrar inteiros.
E a família? Ah, a família é o grande teatro da saudade. Vemos os rostos atuais e, por trás deles, como um véu, surgem as faces jovens, os sorrisos sem desgosto, os corpos ágeis. O pai que já não carrega nos ombros. A mãe cujas mãos, outrora incansáveis, agora repousam. Os almoços de domingo que eram um universo completo, autossuficiente, e hoje são reuniões marcadas no calendário, com ausências que ecoam mais alto que as presenças. Saudade é ouvir o silêncio onde antes havia risada.
E o futuro? O futuro é o território do medo, que é um primo-irmão da saudade. Temos saudade do que ainda vamos perder. Olhamos para os que amamos e sentimos, de antemão, a saudade virgem do dia em que partirão, ou nós partiremos. É um sofrer por antecipação, uma “lonjura” no tempo. Sofremos de lonjuras. Da distância espacial que separa continentes, e da distância temporal que separa eras. Estamos sempre longe. Longe do que fomos, longe do que tivemos, longe do que sonhamos.
A vida, no fim, é um acumular saudades. Chegamos ao último ato carregando um álbum de ausências. Mas talvez a saudade não seja uma maldição, e sim uma prova de que amamos, de que vivemos intensamente. Ela é o imposto cobrado por ter tido algo bom. A dor do vazio é a prova irrefutável de que um dia houve plenitude.
Não busque curar sua saudade. Ela é sua sombra mais fiel. Em vez disso, converse com ela. Pergunte o que ela quer te lembrar. Às vezes, na profundidade desse buraco, a gente encontra não a tristeza, mas uma gratidão tão violenta que se confunde com dor. Gratidão por ter tido. Por ter amado. Por ter estado ali, naquele instante irrecuperável e perfeito.
O futuro será um passado por vir. E nós, cronistas do coração, já sentimos saudades dele.
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