UBERADAS
João Batista de Brito
Fui, outro dia, visitar um amigo que mora longe e pedi um uber. O carro era confortável e o motorista – um senhor de 60 anos – era elegante e simpático. Suave, o som estava ligado e a música era clássica. Sem certeza, achei que era Bach. Perguntei, e era.
E aí começamos um papo sobre Bach e outros compositores clássicos. Falamos de Beethoven, Tchaikovski, Debussy e das interpretações do pianista Lang Lang, a que se pode assistir no Youtube.
Ele perguntou se eu tinha preferências e citei a música que mais amo na vida: o “Segundo Concerto para Piano” de Rachmaninoff. Ele não dispunha dessa peça no momento, mas contou que também gostava muito do compositor russo. E provou com dados sobre a sua vida, sua fuga para a América e tudo mais.
E o papo foi adiante nessa gostosura, eu apelando para não chegar logo a meu destino. Afinal, não é todo dia que a gente conversa sobre afinidades clássicas com um desconhecido. Por sorte, o trânsito estava lento, e ele dirigia sem pressa, como se pensasse a mesma coisa que eu.
Perguntou se eu era músico, e quando lhe disse que não, que lecionara literatura inglesa, ele foi adiante e contou que era formado em advocacia e aposentado de uma empresa bancária, mas que, na juventude, chegou a iniciar um curso de Letras, na Universidade de sua cidade. Contou que gostava de literatura e que ainda hoje lembrava de autores lidos então, Wordsworth, Byron, Keats... E aí passamos a falar do romantismo inglês, aí incluindo Mary Shelley e seu “Frankenstein” que, segundo disse, muito o impressionara.
Ao nos despedirmos, lhe toquei o ombro, com pena de não ser seu amigo e de não podermos ter outra chance de papear.
Ainda tive tempo de comentar que as empresas de transporte por aplicativo bem que podiam introduzir uma nova alternativa para os usuários. Seria a de você poder escolher o nível de cultura do seu motorista. Ao que ele, rindo como eu, alegou que a mesma alternativa deveria valer para o motorista: a de escolher o nível do passageiro.
Pois é. Na viagem de retorno pra casa, sofri: a música foi, de cabo a rabo, Wesley Safadão.
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