Aloísio Lobo
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Aloísio Lobo

CAFÉ OU SOLIDÃO?

Por: | 02/02/2026


  O que é, afinal, o livre-arbítrio quando ele deixa de ser uma escolha confortável?

Numa conversa recente com meu amigo Cleisson Mattza, ele me provocou com essa pergunta incômoda. Disse, ainda, que livre-arbítrio não era essa encenação cotidiana entre escolher café ou chá, branco ou preto, mas a decisão que nos tira do trilho, aquela que escolhe algo fora da curva e, por isso mesmo, cobra preço, risco e solidão.

  A provocação me perseguiu. Porque o mundo moderno adora chamar de liberdade aquilo que, para a maioria das correntes filosóficas mais desconfiadas, sempre foi uma liberdade vigiada. Spinoza, por exemplo, diria que essa ideia romântica de livre-arbítrio não passa de ilusão. Para ele, acreditamos escolher livremente apenas porque ignoramos as causas que nos determinam. Somos flechas conscientes do voo, mas cegas quanto ao arco que nos lançou.

 Já os estoicos aceitavam o destino como força maior, mas não abriam mão da responsabilidade individual. O livre-arbítrio, nesse caso, não está em mudar o curso do rio, mas em decidir como atravessá-lo. Não escolhemos o que nos acontece, escolhemos o modo como reagimos. É uma liberdade mais austera, menos heroica, mas talvez mais honesta.

  Kant, sempre desconfiado das explicações fáceis, empurrou o problema para o campo da moral. Para ele, o livre-arbítrio existe quando o sujeito age não por inclinação, medo ou interesse, mas por dever. É livre quem obedece à própria razão, mesmo quando isso contraria desejos, conveniências ou recompensas. A liberdade, aqui, não é conforto; é disciplina ética.

 No extremo oposto, o existencialismo de Sartre nos joga num abismo. Somos condenados a ser livres, dizia ele. Não há Deus, destino ou estrutura social capaz de nos absolver completamente. Cada escolha é nossa, inclusive a omissão. Não escolher já é uma escolha. E escolher fora da curva, nesse pensamento, é quase a condição básica da existência, ainda que venha acompanhada de angústia.

  Entre essas visões, a vida cotidiana segue chamando de livre-arbítrio aquilo que cabe no cardápio social. Escolhemos marcas, discursos e indignações previamente autorizadas. A liberdade vira um corredor largo, mas com paredes altas. Tudo parece escolha, desde que não desorganize o sistema.

  Vai ver o livre-arbítrio real, como intuiu Cleisson, comece onde essas filosofias se encontram num ponto incômodo: quando a decisão rompe automatismos. Quando não é ditada pela causalidade invisível, nem pela conveniência moral, nem pelo medo da rejeição. Quando a escolha não vem com manual nem garantia.

 Não por acaso, sociedades autoritárias desconfiam dessa liberdade. Preferem indivíduos que escolhem muito, mas sempre dentro do mesmo cercado. Pensar por conta própria, agir fora da curva, contrariar o próprio grupo, vira ameaça. A escolha autêntica passa a ser tratada como desvio.

  Pode ser que o livre-arbítrio não esteja nas pequenas decisões que nos distraem, e sim nas que nos deslocam. Não nas escolhas que confirmam quem somos, mas naquelas que nos obrigam a responder, sem desculpas, por quem decidimos ser. E isso, como a filosofia insiste em lembrar, nunca foi simples como escolher entre café ou chá.

(*) jornalista


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