Por Aloísio Lôbo (*)
A humanidade ainda possui um projeto comum de futuro? Ou nunca o teve?
Em que momento acreditamos que a humanidade caminhava na mesma direção, com um mapa compartilhado e algum acordo mínimo sobre o amanhã? Ou essa ideia de projeto comum sempre foi um mito confortável, desses que ajudam a atravessar crises sem encarar o abismo?
O mundo atual oferece poucas evidências de coesão. Guerras simultâneas, democracias cansadas, crises climáticas tratadas como nota de rodapé, tecnologia avançando sem freio ético. O futuro parece ter sido fatiado, loteado e colocado à venda. Cada país, cada corporação, cada líder age como se o amanhã fosse um ativo escasso, negociável, apropriável.
Costuma-se dizer que já tivemos projetos comuns. A fé prometeu salvação, o Iluminismo prometeu razão, o progresso prometeu conforto, a democracia prometeu igualdade. Mas talvez nunca tenha existido um projeto da humanidade, e sim projetos impostos em nome dela. O futuro, quase sempre, foi administrado por poucos e pago por muitos.
As grandes narrativas nunca dispensaram excluídos. Civilização para uns, barbárie para outros. Desenvolvimento aqui, devastação ali. O colonialismo falava em missão enquanto saqueava. A industrialização falava em avanço enquanto triturava corpos. A era digital fala em conexão enquanto produz solidão em escala industrial.
Nesse cenário de fragmentação, até as instituições criadas para simbolizar um pacto global entram em processo de desmonte. A Organização das Nações Unidas, concebida como resposta civilizatória ao horror da Segunda Guerra, foi sendo esvaziada não apenas politicamente, mas simbolicamente.
Sob a lógica de Donald Trump, o multilateralismo virou estorvo e a ONU passou a ser tratada como um problema imobiliário em Nova York, um prédio caro ocupando um terreno mais lucrativo do que a ideia de cooperação entre nações.
Cortes de financiamento, deslegitimação pública e desprezo calculado transformaram a ONU em peça incômoda num mundo guiado por nacionalismos transacionais. O recado foi cristalino: pactos globais não rendem dividendos imediatos. O futuro coletivo não tem boa cotação no mercado.
Paralelamente, cresce o discurso de que a democracia estaria esgotada. Cansada, lenta, ineficiente. E de fato está exausta, pressionada por desigualdades que ela não resolveu, capturada por interesses econômicos e sabotada por quem se elege para corroê-la por dentro. Mas confundir cansaço com inviabilidade é um erro histórico recorrente.
A democracia não é frágil porque permite o conflito; ela existe justamente para administrá-lo sem aniquilação. Nenhum outro sistema conhecido produziu, ainda que de forma imperfeita e desigual, mais inclusão, mais direitos e mais possibilidades de correção de rumos. O autoritarismo oferece velocidade e ordem aparente, mas sempre cobra seu preço em liberdade e sangue. O mercado promete eficiência, mas não entrega justiça. A força impõe silêncio, não igualdade.
Dizer que a democracia falhou costuma ser o álibi perfeito para quem nunca teve interesse em aprofundá-la. O problema não é o excesso de democracia, mas sua interrupção sistemática. Seu cansaço não a invalida; ao contrário, revela o quanto ainda é necessária.
É possível que o verdadeiro impasse esteja na própria ideia de projeto, palavra que exige horizonte, compromisso e renúncia. O nosso tempo vive de urgências, não de pactos. De reações, não de planejamento. O futuro virou abstração, sempre adiado, sempre prometido, raramente assumido como responsabilidade comum.
Ainda assim, a pergunta insiste. Ela aparece quando alguém defende o planeta sem cálculo de lucro, quando comunidades se organizam para não desaparecer, quando a ciência continua alertando apesar do desprezo, quando a arte se recusa a anestesiar consciências. São fragmentos, não um plano. Sinais, não um consenso.
É possível também que a humanidade nunca tenha tido um projeto comum de futuro. Que tenha tido narrativas dominantes e esperanças dispersas. A diferença agora é que as fraturas ficaram visíveis demais para serem maquiadas. Até as instituições criadas para simbolizar o “nós” estão sendo empurradas para fora da planta baixa do poder.
E é justamente por isso que a pergunta incomoda tanto. Não porque sabemos a resposta, mas porque começamos a perceber que, se um projeto comum ainda for possível, ele passará, inevitavelmente, pela democracia. Cansada, imperfeita, barulhenta, mas ainda o único terreno conhecido onde a ideia de um mundo mais igualitário pode, ao menos, ser disputada coletivamente.
(*) jornalista
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