
Que figura mais perfeita, mais assustadoramente brasileira! Enquanto os críticos lá fora discutem a fotografia, o ritmo, o mérito artístico, nós aqui, no país do "faz-de-conta que está tudo bem", reconhecemos na hora a metáfora que salta da tela e nos agarra pelo pescoço. A perna cabeluda não é uma invenção. É uma tradução. A tradução mais literal e genial da violência que ronda nossos lares, nossas ruas, nossa história.
Pensem comigo: o que é uma perna isolada do corpo? É o membro que chuta, que pisa, que esmaga. Desprovido de rosto, de identidade, de humanidade. É a violência em estado puro, irracional, que vem "de baixo", das profundezas ignóbeis. E cabeluda. Selvagem. Brutal. Não é a violência do soldado fardado, com sua justificativa ideológica. É a violência do porão, do quarto dos fundos, do álcool derramado sobre o jantar frio. É a violência doméstica que, na ditadura, era tratada como "caso de polícia", quando muito. Um crime menor, um segredo de família, enquanto os homens sérios discutiam o País e o Ato Institucional.
A genialidade está aí: o filme pega esse monstro íntimo, essa vergonha escondida atrás das portas, e o joga no espaço público. A perna cabeluda invade as ruas, vira manchete, paralisa a cidade. É exatamente isso que a ditadura fez com a violência política, mas escondeu a violência de dentro de casa. Tudo era público e espetacular o protesto, a repressão, o herói, o vilão. Mas o terror do lar, o medo da mulher apanhada, isso ficava no reino do privado, do insignificante. A perna cabeluda rompe esse pacto de silêncio. Ela diz: "Olhem! O monstro que vocês ignoram dentro de casa é o mesmo que está solto na praça. A violência é uma só. Ela só troca de endereço."
E os jornais de Pernambuco estampando a perna. Aí reside outra faceta brilhante. A nossa mórbida fascinação pelo crime, nossa imprensa que trata a desgraça alheia como espetáculo. A perna vira celebridade. Assim como o "Crime da Sé", o "Maníaco do Parque". Transformamos o horror em entretenimento, em notícia que vende, em lenda urbana para assustar crianças. Esvaziamos o significado político e social, embalamos no celofane do sensacionalismo e servimos ao público no café da manhã. A perna cabeluda é a nossa própria incapacidade de encarar o monstro de frente, preferindo folhear suas atrocidades com o dedo sujo de manteiga.
Oscar em quatro categorias. E o mundo aplaude a inventividade, o horror absurdo. Nós, brasileiros, assistimos e reconhecemos o retrato de família. A perna cabeluda é o pai autoritário que bate, é o Estado que espanca, é a herança escravocrata que ainda nos chuta quando tentamos levantar. É o Brasil que não se civilizou, que resolve seus conflitos na porrada, no grito, no medo.
O Agente Secreto, sem querer, ou querendo muito, fez mais do que um filme de suspense. Fez uma autópsia de um país que ainda carrega, nas pernas cansadas e cabeludas de seu passado, a marca violenta do que nunca conseguiu superar. O monstro não está no esgoto. O monstro somos nós, quando fechamos a porta e achamos que a violência de dentro não tem nada a ver com a violência de fora. A perna cabeluda é essa mentira saindo do ralo e nos dando um valente, inesperado e merecido pontapé na cara.
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