Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

"TODOS POR TODAS"


Por: | 08/02/2026


Pacto de Urgência: Quando os Números Gritam Mais Alto que os Discursos

   Os dados, quando se trata de violência contra a mulher, não são estatísticas. São lápides. São epitáfios escritos antecipadamente. O ano de 2025 foi, na fria e macabra matemática do ódio, o maior em feminicídios da última década. E 2026, em seus primeiros e cruéis meses, parece seguir o mesmo roteiro de horror. É neste palco de emergência nacional que se assina, nesta quarta-feira de fevereiro, o Pacto Nacional contra o Feminicídio. Um documento que chega tarde, mas que não poderia deixar de chegar. É o grito de socorro institucional de um país que vê suas mulheres sendo exterminadas.

   O Presidente Lula assina, os Poderes se unem em campanha, e o lema “Todos por Todas” ecoa pelos salões oficiais. Há uma cerimônia, fotografias, a solenidade do ato. Mas a pergunta que fica, amarga e necessária, é: quantas assinaturas seriam necessárias no passado para evitar que chegássemos a este pico histórico? Quantos pactos invisíveis foram quebrados os do respeito, o da dignidade, o da inviolabilidade do corpo feminino para que precisássemos deste, em papel de Estado, em 2026?

   Simone de Beauvoir, com a lucidez que atravessa décadas, já nos alertava: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.” A frase, hoje, ressoa de forma diferente e mais ampla. A cumplicidade não está apenas entre mulheres. Está no silêncio dos homens “de bem” que não se posicionam. Está na piada que desumaniza, no ciúme que se disfarça de amor, na cultura que ainda vê a mulher como posse, um anexo do ego masculino. O Pacto, ao convocar explicitamente os homens a se engajarem, tenta romper esta cumplicidade estrutural. É um reconhecimento tardio de que esta guerra não será vencida apenas por aquelas que são seu alvo.

   A união dos Três Poderes em torno da causa é, sem dúvida, um avanço simbólico e prático significativo. O Judiciário, com suas sentenças e medidas protetivas que muitas vezes se mostram de papel frágil diante da determinação assassina. O Legislativo, com leis que, embora mais duras, parecem não inibir a fúria misógina. O Executivo, com políticas públicas que tentam chegar tarde demais à casa onde o grito já se calou. Juntos, talvez tenham mais força. Mas a verdadeira força terá de vir de uma revolução íntima, doméstica, cotidiana.

   Os números de 2025 não são um acidente. São a culminação de um processo. São a prova de que, por mais que se fale, por mais que se denuncie, uma corrente subterrânea de ódio e posse segue fluindo. O Pacto é um dique de emergência contra esta enxurrada. Mas diques são medidas de contenção. O que precisamos é de um redirecionamento radical do rio.

  “Todos por Todas” é mais que um lema. É uma inversão de lógica. Tira o problema do gueto do “assunto de mulher” e o coloca no centro da praça pública, como uma responsabilidade civilizatória de todos. Inclui, principalmente, aquele homem que nunca levantou a mão, mas que calou uma piada machista, que não questionou o controle do amigo sobre a parceira, que achou exagero o feminismo.

   No fim, a crônica de hoje é sobre um pacto que tenta remediar a quebra de um pacto muito mais fundamental: o social. O pacto que diz que uma vida feminina vale tanto quanto uma vida masculina. Que o corpo da mulher é sua soberania. Que o ciúme não é prova de amor, mas sintoma de posse. Que o “não” é uma frase completa.

   Beauvoir também disse que “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” Talvez, no enfrentamento ao feminicídio, estejamos finalmente entendendo que ninguém nasce opressor: torna-se opressor. E o que se constrói social e culturalmente pode e deve ser desconstruído. O Pacto é um passo, talvez um dos primeiros firmes, nesta longa e urgente desconstrução. Que ele não fique apenas nas palavras oficiais, mas ecoe nos lares, nos bares, nos estádios, nos interiores dos homens. Enquanto uma mulher for morta por ser mulher, todo o resto a economia, o progresso, o futuro será apenas um cenário de vergonha.

  A assinatura secou. Agora, que a tinta se transforme em ação. A vida de todas depende, literalmente, disso.




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