Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

CRÔNICA DO TERÇO DESFIADO: O HOMEM QUE VEIO PARA SOSSEGAR OS CÃES


Por: | 10/02/2026


   Não se governa um país com as mãos limpas. Governa-se com as mãos sujas de história, de cimento, de pó de giz das escolas e do lodo dos rios estagnados. Portugal, este velho cadáver adiado que teima em ressuscitar a cada eleição, acaba de enterrar um suspense e desenterrar um enigma. Elegeram António José Seguro. Não riam. Ou riam, é um direito vosso, o riso é o último refúgio do desespero. Elegeram-no não pelo que é, mas pelo que não é. Ele é a sombra serena no muro, quando os outros eram clarões cegantes e perigosos.

   Vamos desfiar este terço de culpas, este rosário de candidatos que pareciam saídos não de um programa político, mas de um casting para representar as neuroses lusas.

   Lá iam eles, um após outro, na procissão. Luís Marques Mendes, o comentador, a voz do establishment que já foi governo, a tradução do poder em tom moderado de horário nobre. André Ventura, o choque, o dedo na ferida purulenta, o vendedor de simples soluções para complexas angústias. O demagogo, sempre necessário, sempre perigoso, o espelho que devolve a imagem de uma certa Portugal bravio e ressentido. Henrique Gouveia e Melo, o almirante, a fantasia do salvador técnico, da mão firme e isenta. A nostalgia de um Salazar sem bigode, entregue às águas geladas da gestão. António Filipe, a chama vermelha que teima em não apagar, a memória intacta da foice e do martelo num mundo de bitcoins. Catarina Martins, a guardiã do “não”, da pureza ideológica, a voz que soa a trova antiga de resistência, mas que às vezes confunde o Parlamento com uma assembleia de estudantes. João Cotrim de Figueiredo, o liberal, o crente no deus Mercado, o que acha que desregular é libertar e que uma sociedade é um aglomerado de start-ups. Jorge Pinto, o outsider, a prova de que qualquer um pode jogar este jogo, desde que tenha a coragem de enfrentar o vazio dos ecrãs.

  E no meio deste coro de sereias, cada uma cantando uma parte da nossa tragédia, lá estava António José Seguro. Seguro. O nome é um programa. Ou uma resignação.

   Ele não prometeu revoluções. Prometeu administração. Não falou em destinos gloriosos, falou em contas certas. Não invocou o povo, invocou a “gente esforçada”. A sua vitória não é um triunfo, é um suspiro de alívio. Portugal, cansado de se olhar ao espelho e ver ora o rosto contorcido de Ventura, ora o rosto austero do Almirante, ora o rosto impassível dos tecnocratas, escolheu fechar os olhos e tatear. E as mãos tocaram num rosto familiar, sem ângulos agudos, sem barba por fazer. O rosto do pai sereno, do irmão mais velho, do funcionário público competente.

  Mas não nos iludamos. Seguro não é uma pausa na História. É o produto dela. É a encarnação do “socialismo” que já não treme nas fundações, que já não cheira a cravo, que cheira a contrato e a fundos europeus. É a esquerda que domesticou os sonhos e aprendeu a falar a língua dos bancos, sem gaguejar muito. A sua política social será um paliativo, um amortecer das arestas mais cortantes do capital. Será a garantia de que ninguém morre à fome à porta de um hospital, ainda que muitos vivam doentes à porta da dignidade.

   E aqui entra a geopolítica do nosso cantinho. Com Seguro, a Europa acalma. Bruxelas sorri, um sorriso fino. Não será um Syriza, muito menos um Orban. Será um aliado previsível, um parceiro fiável na gestão do declínio relativo do continente. É a filosofia do possível, do realismo sem grandeza. É a morte do mito, a aceitação do lugar.

  Lutar é um momento histórico? Sim, mas a luta agora é outra. Não é a luta nas barricadas, é a luta contra a entropia, contra a mediocrização, contra o esquecimento do que foi a ambição coletiva. Seguro governará um país que já não acredita em heróis, mas que teme os vilões. Governará com o fantasma de Ventura à sua direita, um lembrete constante do que pode acordar se a administração falhar. E à sua esquerda, os fantasmas de uma revolução que ele próprio ajudou a arquivar.

  O seu mandato será medido não pelo que construir, mas pelo que impedir que desabe. É um presidente-engenheiro para um país em risco de derrocada lenta. É um homem do consenso num tempo de fraturas. Pode ser o remédio necessário, o chá de tília depois de uma noite de aguardente. Ou pode ser a comprovação final de que baixámos as expectativas ao ponto de chamar “vitória” à simples ausência de catástrofe.

   No fim, desfiámos o terço. As contas são as mesmas de sempre: a memória, o medo, a esperança desbotada. Seguro segurará o quê? O leme, sim. Mas para onde navega este barco que já não busca novos mundos, mas apenas não naufragar no velho? A crónica fica por aqui. A resposta, meus caros leitores atentos, será escrita não nos palácios, mas nas ruas, nos salários, no silêncio resignado ou no ranger de dentes que há-de vir. O terço está nas nossas mãos. Rezemos, ou praguejemos. Como preferirmos.

(Meu coração é Luso)


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