Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

QUANDO A LITERATURA BRASILEIRA SILENCIOU


Por: | 10/02/2026


Quando foi que a literatura brasileira resolveu baixar a voz? Ou pior, quando foi obrigada a calar? 

  Não falo do calar ou do silêncio criativo, como intervalo necessário entre uma frase e outra, mas daquele silêncio espesso, político, imposto ou convenientemente aceito. Aquele em que livros não desaparecem das prateleiras por acaso, mas por medo, censura ou acomodação. Aquele em que escritores seguem escrevendo, mas aprendem a dizer menos do que sabem.

 A literatura brasileira já silenciou muitas vezes. Silenciou quando a escravidão acabou no papel, mas continuou viva nas ruas, e poucos romances ousaram olhar para o abismo sem exotismo ou piedade. Silenciou quando a República nasceu prometendo cidadania e entregando exclusão, enquanto parte da ficção preferiu salões, costumes e pequenas tragédias privadas, como se o país real fosse um incômodo passageiro.

Silenciou de modo mais ruidoso durante a ditadura militar. 

  Alguns livros gritaram, é verdade, e pagaram caro por isso. Outros aprenderam a sussurrar, inventando metáforas, alegorias, desertos imaginários para driblar a tesoura da censura. Mas houve também o silêncio confortável, o da neutralidade elegante, o da arte que se diz acima de tudo enquanto tudo pega fogo.   Depois veio a redemocratização, e com ela um novo tipo de silêncio. Não mais imposto, mas negociado. O mercado cresceu, as editoras se profissionalizaram, e a literatura passou a disputar espaço com o entretenimento rápido. Muitos temas ficaram para depois, sempre para depois. A fome virou estatística. A violência virou pano de fundo. A desigualdade virou paisagem.

 O silêncio também se atualizou. Não é mais preciso proibir um livro para silenciá-lo. Basta não divulgá-lo. Basta soterrá-lo sob lançamentos semanais, listas, rankings, selfies literárias. O algoritmo faz hoje o trabalho que o censor fazia ontem, com menos farda e mais eficiência.

   E há o silêncio interno, talvez o mais cruel. Quando o escritor começa a se autocensurar antes mesmo de escrever. Quando pensa no edital, no prêmio, na reação da plateia. Quando a frase nasce já domesticada, sem risco, sem aresta, sem perigo real. A literatura, então, continua falando, mas diz apenas o que é permitido ouvir.

  Ainda assim, o silêncio nunca foi absoluto. Sempre houve quem escrevesse à margem, quem publicasse pouco, quem fosse lido tarde demais. A literatura brasileira sobreviveu porque alguns se recusaram a calar, mesmo quando sabiam que ninguém estava escutando.

  Sinto que o problema não tenha sido apenas quando a literatura brasileira silenciou, mas quando fingiu que estava falando tudo. É quando o silêncio se torna mais perigoso porque se apresenta como discurso pleno. E a literatura, quando se esquece disso, corre o risco de virar apenas ruído bonito num país que exige, desesperadamente, palavras que incomodem.

 Jornalista


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