
Senta, América, que lá vem crônica.
Ela sentou. Colocou suas pernas de vulcão adormecido sobre o palco mais vigiado do planeta, vestiu um jersey cor-de-rosa e soltou os cachos ao vento texano. Chamam de Bad Bunny. Eu chamo de espelho.
Ali, no intervalo do Super Bowl, enquanto o império vendia hambúrguer e pílulas para disfunção erétil, um cara de Porto Rico simplesmente existiu sem pedir desculpas. Não pediu licença para entrar. Não traduziu a própria alma. Não alisou o cabelo para agradar. E essa existência, em si, já foi um tiro na lua.
Alguns viram anti-Trump. Pobreza.
Não se trata de um contra. Trata-se de um a favor. A favor da memória. A favor da língua que não se curva. A favor do orgulho cabrón de ser quem se é, mesmo quando te mandam ser “americano” essa palavra que sequestraram e engravataram, mas que no fundo, no fundo, sempre foi nossa também.
Porque nós, latinos, somos a América antes do muro, antes do dólar, antes do inglês engolido. Nós somos a América de Cuzco e Machu Picchu, a América de Gabriela Mistral e García Márquez, a América de Tropicália e da Nueva Canción. Nós somos a América que fala espanhol e português, mas também quéchua, guarani, náuatle. Nós somos a América que reza em velas e tambores. A América que não come pão, come arepa, tortilla, pão de queijo.
E o mundo branco se assusta quando descobre que não somos convidados. Somos donos.
Bad Bunny no Super Bowl não foi um desfile de folclore para turista ver. Foi um lembrete: vocês estão no nosso quintal. E nós não vamos embora. Nunca vamos. Porque isso aqui, essa imensidão que vai do Alasca à Patagônia, é uma coisa só. Rasgada por fronteiras que inventaram, mas unida por uma ferida que insiste em pulsar.
O império quer nos ver fragmentados. Mexicano contra portenho. Boricua contra dominicano. Brasileiro achando que não é latino — ilha de portugueses cercada de espanhóis por todos os lados, essa piada que contamos para dormir melhor. Mas a verdade é que quando a gente desce do salto, quando a mãe aperta a mão da gente no metrô de Nova York, quando o vendedor ambulante de Los Angeles chia a carne no carrinho e o cheiro invade a calçada aí a gente lembra.
A gente lembra que latino não é etnia, é condição. É saber que teu sobrenome vai fechar portas. É saber que teu sotaque vai ser piada. É saber que vão te pedir documento num lugar que foi teu antes de existir documento.
E ainda assim, a gente fica.
Não por falta de opção. Por excesso de pertencimento.
Porque essa terra nos pariu na dor e no êxtase, no estupro colonial e no milagre da mestiçagem, na cana-de-açúcar e na bossa nova. E a gente carrega essa terra nos ossos, mesmo quando moramos em Brooklyn. Mesmo quando nossos filhos já não falam a língua da avó. Mesmo quando o espelho insiste em devolver um rosto que a América oficial ainda insiste em chamar de estrangeiro.
Bad Bunny não pediu que entendessem suas letras. Só pediu que ouvissem seu silêncio entre uma nota e outra. E o silêncio dizia: não vou mudar para caber no seu molde. O molde que se alargue.
E é por isso que essa crônica não cabe em 140 caracteres.
Porque ser latino é ser excessivo. É ser barroco. É ser muitos. É ser a multidão que ocupa as ruas de Buenos Aires, o caos organizado de São Paulo, a ternura desarmada de Havana. É ser o refugiado que atravessa o rio com uma criança no colo. É ser a avó que benze a casa com arruda. É ser o adolescente que dança reggaeton no quarto e, por três minutos, é dono do mundo.
A América que eles vendem é clean, asséptica, individualista. A nossa América é suor, é feijão, é abraço apertado. É solidão curada na esquina do botequim. É desespero virado em arte.
E talvez seja isso que o Bad Bunny, sem querer ou querendo muito escancarou naquele palco iluminado: nós não somos o pesadelo americano. Somos o sonho que eles tiveram medo de sonhar.
Um sonho mestiço. Polifônico. Desobediente.
Um sonho que não pede visto. Não implora green card. Não se explica.
Apenas chega. Senta. E diz: presente.
E senta, América, que ainda não acabou.
Porque enquanto houver um latino respirando, essa crônica segue aberta. Essa história segue sendo escrita. Esse palco segue sendo nosso.
E que venham os próximos.
Com ou sem convite.
Com muito ou nenhum dinheiro.
Com sotaque ou sem precisar falar.
Porque a voz que não se cala não precisa de volume. Precisa de verdade.
E verdade, minha gente, a gente carrega no nome antes mesmo de aprender a dizer.
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