Mirtzi Lima Ribeiro
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Mirtzi Lima Ribeiro

DESACELEREI E DESLIGUEI


Por: | 12/02/2026


      Ultimamente tenho me permitido ser imperfeita, me desligar para certas coisas, mantendo unhas bem feitas, esmalte irretocável e adereços maximalistas. Compro flores. Ou seja, quero me sentir bem cuidada mesmo que o mundo à volta tenha desabado.

   Ando aprendendo a deixar para depois, a manter a agenda sem anotações, a deixar o WhatsApp cheio de bolinhas verdes de mensagens não lidas, de chegar além do horário marcado. Daí aprendi a marcar entre tal e qual minuto para chegar dentro dessa margem.

    Talvez eu tenha cansado de ser perfeccionista desde menina ou cheguei a um nível de exaustão tal, que meu organismo desligou vários canais para me poupar. Estou me permitindo isso sem culpa ou autocobrança, além de rir com bobagens, adotar a leveza, no modo Laissez-faire, aquela expressão francesa que significa “deixe acontecer”.

 Desde criança tive responsabilidades demais e a essa altura da vida, após a longa travessia do Cabo da Boa Esperança, é possível ficar um tempinho meio relapsa.

  Para quem não lembra, o Cabo da Boa Esperança ou Cape of Good Hope, existe e recebeu esse nome por D. João II, quando navegantes portugueses descobriram essa rota marítima para as Índias. É um ponto na África do Sul entre os oceanos Atlântico e Índico, marco histórico na navegação daquela época.

   No sentido figurado, o termo é associado à ideia de ter ultrapassado fases difíceis, alcançado a maturidade ou uma nova perspectiva de vida.

   Cresci ajudando nos afazeres da casa que ocorria não por hobby e sim para que a casa funcionasse bem. Tinha ainda o cuidado com os cachorros de grande porte da família.

  Aprendi a bordar, costurar, cozinhar, lavar, passar e a limpar a casa de modo impecável: chão, portas e janelas de madeira, esquadrias, espelhos, tapete e outras coisas mais.

    Comecei a lecionar antes dos 18 anos, a trabalhar em banco a partir dos 19, enquanto estudava na universidade. Depois, já graduada, trabalhei na indústria como analista de custos fabris, exercendo em paralelo ofício de professora. Nessa fase, a limpeza da casa continuava aos meus cuidados.

  Passei de professora de colégio técnico à docente de universidade, enquanto trabalhava também em área técnica e me pós-graduava. Meu dia parecia ter mais de vinte e quatro horas. Depois: casamento, filho, casa, vida profissional, divórcio, viagens, trabalho com palestras ou cursos, e, atividades em ciclos sem fim.

   Hoje, eu me dou ao luxo de ter quem faça coisas para mim: cozinhar, cuidar da casa, da minha roupa e em organizar tudo. Enquanto isso, continuo na vida profissional, providenciando a manutenção da casa e me permitindo ter certa agenda cultural. Entretanto, se eu falhar em alguma coisa, olho para mim mesma e digo: relaxe, o mundo não vai se acabar por isso.  

   Cozinho com muito prazer em fins de semana, sem os compromissos de trabalho, podendo fazer inúmeras atividades como plantar, colher, trabalhos manuais, ler, tomar uma cerveja durante o dia e vinho à noite, ver filmes, ouvir música ou ficar à toa, sem fazer absolutamente nada, acompanhando o tempo e o vento passarem. 

  E na hora do sono, durmo pesadamente como quem não dorme há muito tempo e não tem mais nada a fazer. Há coisa melhor do que ficar à toa?


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