De pai para filha: a literatura na família Lins do Rego
Francisco Gil Messias
gmessias@reitoria.ufpb.br
Talento é hereditário? Nem sempre. Para falar a verdade, creio que só raramente. Temos visto muitos descendentes de gente talentosa que não dá para nada - ou quase isso. E talvez seja melhor assim, pois seria muito chato já saber de antemão que o filho de Einstein seria uma cópia do pai. Bom mesmo é a loteria do destino que torna tudo incerto e a todos nós mais ou menos humildes, diante das incertezas da vida. Pai ou mãe geniais, filhos nem tanto. Que os ventos do talento soprem em qualquer lugar, nos palácios e nas favelas, e que os dons não deixem nunca de florescer por falta de recursos e oportunidades.
Aliás, aqui pra nós, a justiça se manifesta mais quando o talento surge nos lugares menos prováveis e não nos lugares óbvios. São as misteriosas compensações de Deus, dizem os crentes, E tomara que seja assim. Que o esforçado aluno da escola pública e morador da periferia seja o futuro ganhador do Nobel. Meu aplauso será maior para ele que para outro que tenha tido mais sorte. Mas que estes, os mais sortudos, se merecerem louros, pelas aptidões e pelo esforço, não se sintam excluídos do meu respeito.
Na casa de José Lins do Rego, pode-se dizer que o talento literário passou de pai para filha. Se não na mesma altitude, pelo menos em razoável medida, o que por si só já é um feito. Parece-me que, neste caso, o pai não chegou a ver o desabrochar da filha nas letras, o que é uma pena, se for verdade. Nosso menino de engenho certamente teria se orgulhado de sua Maria Christina, cronista e contista de finos artefatos, já com vários livros publicados.
Mais do que discreta, a produção literária de Maria Christina Lins do Rego Veras é de uma delicadeza que salta aos olhos do leitor. Talvez por conta dos temas, muitos deles de nítido caráter memorialista, trazendo-nos as delícias do Rio de Janeiro da infância e adolescência da autora, privilegiada moradora de uma cidade que ainda era maravilhosa, e também de suas férias em nossa Praia Formosa, na casa avoenga do senador Massa, pai de sua mãe. De fato, há doçura e uma certa nostalgia nos textos dessa carioca nascida em Alagoas, ao tempo em que por lá morou e trabalhou Zé Lins. Mas, antes de tudo, há delicadeza.
E a delicadeza pode perfeitamente ser a marca personalíssima de um estilo. Sobre isso, referindo-se à nossa contista, escreveu o crítico Ivan Cavalcanti Proença, seu descobridor, na orelha de Garzon 10 e outras histórias (Editora José Olympio, 2012, Rio de Janeiro): “O estilo é de uma simplicidade absoluta. Oralizante, coloquial, com aquela autenticidade de quem sabe narrar, ritmo de narrativa adequado ao propósito, à profissão de fé singela da autora. E o mais curioso é que não se trata de escrita despojada, enxuta, o que logo se observa no emprego de ampla adjetivação, construções verbais, perifrásticas, pontuação tradicional. E a combinação entre simplicidade e o não despojamento resultou escrita atraente, bem conduzida, talentosa”. Eis um comentário que, dizendo pouco, diz tudo.
E aqui faço um registro: chamou-me a atenção o fato de o crítico não considerar negativa a “ampla adjetivação” empregada pela escritora, pois é muito comum a pouca estima que a crítica tem pelos adjetivos. Mas, meu Deus, qual o problema em se adjetivar quando é preciso, desde que sem excessos e derramamentos? Cavalcanti Proença, com a sua autoridade, nos tranquiliza um pouco quanto a isso. Se não tivessem alguma serventia, para que existiriam os adjetivos?
Maria Christina publicou também, mas não só, Carta para Alice: memórias de uma menina (2007), Jacarandás em flor (2010) e Um cheiro de amor (2017). São livros pouco volumosos, em torno de cem páginas, tudo compatível com a delicadeza acima referida. Livros bons de ler, sem pressa, como uma degustação de refinada iguaria.
Casada com um diplomata, a autora tem corrido o mundo. Mas nunca se desapegou das raízes nordestinas, o que prova o seu caráter. Com muita razão, orgulha-se do pai e de sua obra, e não poderia ser diferente. Nós, paraibanos, também cultivamos, com ela, esse justo orgulho.
Se não chega a ser um destino, a literatura foi uma escolha de Maria Christina, após o merecido estímulo do professor Cavalcanti Proença. Com ela, ainda bem, o talento de Zé Lins não se perdeu, o que prova que a genética às vezes funciona.
Todos os campos são obrigatórios - O e-mail não será exibido em seu comentário