Waldemar José Solha
Waldemar José Solha
Waldemar José Solha

UM ANJO NA SOMBRA - Apresentação do livro PÃO COM SABOR DE POESIA, pelo escritor Francisco Gil Messias

Por: | 14/02/2026


(Apresentação do livro "PÃO COM SABOR DE POESIA", pelo escritor Francisco Gil Messias, na ocasião do lançamento)

Antes de começar a escrever estas palavras, fiquei um tempo refletindo sobre como fazê-lo. Um tempo pensando na pessoa de João Batista e seu modo de ser e de estar no mundo. Imaginando algo que pudesse defini-lo sumariamente e que pudesse ao menos ser compreendido pelos que o conhecem mais de perto, mesmo que sem intimidade. E o que me surgiu no pensamento foi o anjo de que fala a primeira estrofe do primeiro poema do primeiro livro de Drummond, aquele mesmo que vocês estão a identificar silenciosamente neste momento: aquele que vive na sombra, quase escondido, reservado e discreto como viria a ser o próprio poeta de Itabira do Mato Dentro.

Creio que não errei. João de fato é um dos anjos das letras paraibanas contemporâneas, e por temperamento, talvez por opção, não faz nenhuma questão dos holofotes da mundanidade. Prefere desde sempre o recato da cátedra magisterial, o escurinho das salas de cinema e a solidão do gabinete onde lê e escreve, todas elas atividades intrinsecamente solitárias, a despeito de as duas primeiras implicarem gente ao redor. O professor, quem já ensinou sabe, não raro é uma ilha em meio a um oceano de incompreensões; o espectador de filmes, mesmo quando acompanhado por muitos, como acontece no cinema, na realidade assiste sozinho, de si para si, ao que se passa na tela; e o leitor e o escritor, sabemos todos, são eremitas em sua luta com as palavras.

E se o anjo drummondiano mandou o poeta ser gauche na vida, profecia que se cumpriu, podemos arriscar dizendo que, à sua personalíssima maneira, o nosso JB, como carinhosamente o chamava o saudoso Odilon Ribeiro Coutinho, também o é. Mas

esclareço. A palavra gauche, que possui muitos significados, nem sempre positivos, aqui está empregada no sentido de timidez e também, por que não?, de uma saudável inadequação aos rituais sociais não raro marcados por vaidades vãs e por interesseiras

hipocrisias.

Quem conhece a obra já consolidada de João Batista, seja como crítico de cinema, seja como ensaísta ou como cronista, sabe de seu valor. Como crítico da sétima arte, é um nome nacional, tamanha foi a repercussão no país de seu consagrado Imagens Amadas, de 1995, hoje uma obra de referência para os cinéfilos. E entre nós, leitores aldeãos, é uma unanimidade com as seguintes publicações, entre outras: Poesia e Leitura: os percursos do gozo, de 1989, Passou no Banguê, de 1996, Um beijo é só um beijo, de 2001, e Hollywood em outras línguas, de 2009. Sem falar, claro, nas crônicas regulares do Facebook, que tanto fazem a delícia de antos. Algum espírito de porco poderá dizer: “Para um tímido, até que ele faz por aparecer”. Mas não procede, sabe-se, pois nestes livros – e em todo lugar – o nosso autor faz questão de dar mais protagonismo às suas criações intelectuais que à sua pessoa, franzina por natureza, como se quisesse ocupar um mínimo espaço físico no mundo.

Leitor e professor de Shakespeare sem ser pedante, apreciador dos vinhos sem pretender ser enólogo, conversador espirituoso sem almejar dominar a conversa, João é sempre uma companhia adorável. E é um fino observador da natureza e da psicologia

femininas, o que explica ter mais fãs mulheres do que homens, segundo o arguto amigo comum Mirabeau Dias.

Agora ele nos presenteia com este Pão com sabor de poesia, título que é ele mesmo poético. Uma coletânea de textos que o autor dividiu em crônicas e (talvez) argumentos, argumentos estes que também poderiam – e podem - ser chamados de minicontos. As

denominações aqui não importam, pois ao leitor o que interessa é o miolo desse pão literário, tão gostoso como o antigo pão da padaria de Seu Rui de Brito, pai do autor, em Jaguaribe.

O leitor verá que as crônicas são as memórias do autor – ou pelo menos parte delas. Ali estão a sua infância, a sua adolescência e a primeira juventude, quando começou a cultivar mais conscientemente, para além do lúdico, seu apurado gosto pelo cinema. E Jaguaribe é o lugar central dessa fase de sua vida, um lugar mítico que ainda hoje mantém essa centralidade telúrica, dividindo com Manaíra e sua orla crepuscular o seu afeto mais íntimo. Jaguaribe e seus três cinemas inesquecíveis: o Santo Antônio, o São José e o Jaguaribe. Neles, o menino e o quase rapaz cursaram o primário, o ginasial e o clássico cinematográfico, para usar o vocabulário pedagógico da época. O Rex, o Plaza e o Brasil,

para citar só alguns outros, foram complementares na sua formação, assim como, um pouco depois, foi o Municipal, com seus requintados filmes de arte das quintas-feiras. E nesse processo educacional não esqueçamos, dentre outros, o crítico Antônio Barreto Neto, a desvendar-lhe, nos jornais, o segredo das imagens amadas de então. Tudo isso está saborosamente – e liricamente – narrado na primeira metade do livro. As origens do cinéfilo, do literato, do crítico, do cronista e do professor João Batista de Brito, astro brilhante do firmamento cultural da aldeia e para além dela, na verdade. Na segunda metade, temos os “argumentos” cinematográficos, ou seja, ideias gerais das quais poderiam – e podem – resultar filmes. Como disse, podem também ser chamados de minicontos, cada qual rico em sua potencialidade para virar imagem, mas, independentemente disso, apenas como narrativa, já pleno de criatividade literária. Do conjunto, destaco especialmente três, por sua explícita relação com a literatura: “Ora, Eça”, “Nossa Senhora da Apresentação” e “Um Filme Inglês em Paris”, deliciosos para o leitor que conheça os livros a que se referem.

Memórias, literatura e cinema. Como se vê, de tudo isso faz-se um livro – e que livro! Da mesma forma que de farinha, água, sal e fermento faz-se um pão, e às vezes, apenas às vezes, mais que um simples pão: um pão com sabor de poesia.



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