Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa
Hildeberto Barbosa

Papéis avulsos

Por: | 16/02/2026

Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Papéis avulsos

Tirei a tarde do último sábado para enfrentar velhos papéis guardados. Papéis avulsos, só para lembrar o belo título de Machado de Assis. Abri gavetas entupidas e fui pegando folhas, envelopes, anotações, cartas, cartões postais, retratos antigos. Enfim, tudo aquilo que preserva um pequeno vestígio de coisas vividas e um rastro de emoções desencontradas.

Li um velho bilhete, de página amarelada, assinado por minha mãe, e que assim dizia: “Filho, quando vier da escola, não esqueça de passar na florista. Ela tem cravos e rosas para mim. Depois acerto tudo. Não deixe escurecer. Nem se atrase”.

Não me lembra, agora, passados tantos anos, as circunstâncias do fato. Lembro, sim, o quanto minha mãe gostava de rosas e cravos.
Adorava cuidar das flores dispostas em pequenos jarros e penduradas no alpendre. Revejo as coroas de frades, os cactos, palmas miúdas, jasmins, gerânios, azaleias e outras espécies da beleza vegetal. Umberto Eco fala também de uma “memória vegetal”, a qual adiciono uma disciplina ética e uma teologia do aroma.

Depois me deparo com uma foto em sépia de meu avô Mine. Magro, alto, alvo, olhos azuis, mãos calejadas, ar sereno fitando os longes do Sarafim. Homem do campo, inteiramente dedicado à labuta da gleba e do gado, como se a lavoura e o criatório tivessem a textura de um sagrado ritual. Com ele aprendi que a terra dura para sempre e que a água vale como vale o mais precioso dos diamantes. Gaston Bachelard discorre sobre a fenomenologia da água e aponta suas propriedades curativas e seus benefícios espirituais.

Dentro de um caderno mal alinhavado, encontro recortes de jornais antigos. Leio, comovido, Luiz Augusto Crispim escrevendo sobre a minha poesia de estreia, em A geometria da paixão, vendo, nos meus versos ainda juvenis, a marca de um clássico moderno. Crispim era um cronista refinado, um lírico de estilo elegante e um intelectual provido e generoso. Ensaísta ousado, trouxe George Lukács para nós, paraibanos, via João Cabral de Melo Neto e Euclides da Cunha, num livrinho intitulado Por uma estética do real.

Toco, ao acaso, num pacotinho de cartas amarrado por uma liga. Cartas de Jomard Muniz de Britto, todas datilografadas. Abro uma delas e leio: “Caro Hildebarthes, precisamos, urgente, organizar um debate sobre a modernidade aí em João Pessoa. Penso em convidar Gabriel Bechara, Bráulio Tavares e Paulo Michelotto. Você poderia fazer a intermediação. Que acha? Se ler só dá prazer, discutir certos temas é dinamite pura. Se os poetas estão adoecendo de ausência, vamos fazer desse encontro de vozes tão díspares uma terapia do compartilhamento e uma zona erógena da paixão”.

Nunca mais vi Jomard. Sei que está doente, não atua mais na cena cultural e artística das três capitais nordestinas: Recife, João Pessoa e Natal, com sua criatividade e seus “atentados poeticos”. Sinto sua falta, assim como do seu texto instigante, fragmentado, irreverente e didático, se considerarmos a possibilidade de uma didática da desconstrução e do desaprender. Jomard era uma pedagogia pelo avesso, uma sala de aula ambulante a serviço do conhecimento e da invenção estética. Muitos atores, escribas e professores daqui beberam de sua fonte inesgotável e prodigiosa.

Pequenos cartões, convites de outrora, marca-textos, escritos casuais, tudo ficou, de repente, à minha disposição, numa mistura de encanto e saudade. A tarde de sábado me devolveu a mim mesmo em meio à doce intimidade desses papéis avulsos. Guardá-los é reter e preservar pedaços de vida.


FONTE: Facebook - Acesse

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