Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

ACADÊMICOS DE NITERÓI, QUANDO O SAMBA CUTUCA O PODER


Por: | 20/02/2026


   Há quem vá ao desfile para ver plumas. Há quem vá para ouvir o surdo. E há quem vá como eu  para escutar o que o poder finge não ouvir. A Acadêmicos de Niterói entrou na avenida este ano como quem pisa em terreno minado: sorrindo. Porque no Brasil, minha senhora, meu senhor, crítica política se faz dançando. E às vezes é na cadência do tamborim que mora a pergunta que não passou no plenário.

   O enredo não gritava nomes. Não precisava. Falava de liberdade com metáforas tão transparentes quanto vidro recém-limpo. E foi ali, na alegoria central aquela que misturava livros, mordaças e espelhos que o desfile deixou de ser festa para virar diagnóstico.

Carnaval sempre foi nosso editorial ilustrado.

  Lembremos de quando a Beija-Flor de Nilópolis, em 1989, levou para a avenida o "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia" e ousou vestir a miséria com a dignidade que o Estado lhe negava. Lembremos da Portela em 1966, com "Memórias de um Sargento de Milícias", crítica social enviesada que era, na verdade, um espelho da ditadura que se anunciava. Ou quando a Mangueira, em 2019, resolveu recontar a história oficial do Brasil e lembrou que herói de verdade nem sempre está em estátua às vezes está na favela, no quilombo, no livro que nunca foi adotado na escola. E a Salgueiro, em 1969, com "Bahia de Todos os Deuses"? Um grito de liberdade estética e religiosa que enfrentou a repressão com a força do candomblé.

 O crítico político dirá: "Carnaval não é lugar de militância." O jornalista cauteloso perguntará: "Mas isso não afasta patrocinadores?" O comentarista de televisão sorrirá constrangido e falará em "polarização". O jornalista Zuenir Ventura, em sua obra-prima Cidade Partida, já dizia que o carnaval é a única vez no ano em que o Brasil se encontra. Mas que encontro é esse se não podemos falar de nós mesmos?

   Ouvi um crítico de política, o Vladimir Safatle, comentar que o desfile de Niterói não era apenas uma apresentação, mas um "diagnóstico". Ele dizia: "A política brasileira virou um desfile de horrores, e a escola transformou o horror em arte. O problema é que estamos anestesiados. Achamos bonito, mas não nos sentimos atingidos."

   Polarização. Palavra elegante para um país rachado. A opinião pública, essa entidade difusa que cabe num post e explode em comentários, divide-se entre aplausos inflamados e acusações de doutrinação. Há quem clame por censura sempre em nome da ordem, da tradição, da família ou do mercado. Curioso como a censura, no Brasil, costuma vir embrulhada para presente.

  Mas perguntemos com a honestidade que a quarta-feira de cinzas exige: desde quando arte que não incomoda é arte? Desde quando o samba nasceu neutro?

   O Carnaval foi perseguido na Primeira República. Sambistas foram presos. Instrumentos, confiscados. A folia já foi considerada caso de polícia. E hoje, quando uma escola ousa apontar o dedo para os donos do cofre, surge novamente o velho fantasma: "não pode". Não pode criticar. Não pode questionar. Não pode lembrar.

Mas a avenida é memória em movimento.

    A  Acadêmicos de Niterói não fez panfleto. Fez alegoria. Não escreveu manifesto. Cantou metáfora. E é justamente aí que mora o perigo para quem teme o pensamento. Porque metáfora é uma arma branca: corta sem fazer barulho.

  Alguns analistas políticos enxergam na crescente politização dos desfiles um reflexo do próprio país a cultura absorvendo o que o Congresso produz. Outros afirmam que o Carnaval virou "palco ideológico". Como se o silêncio fosse mais ideológico do que o grito.

   O fato é que a escola cumpriu aquilo que o jornalismo às vezes esquece: fez pergunta. E pergunta é dinamite civilizada. Num país onde CPIs viram espetáculo e discursos oficiais parecem roteiros de ficção, talvez seja coerente que a ficção da avenida pareça mais verdadeira do que a política real.

  A comissão de frente, um bando de pierrôs com as caras pintadas de sangue, simulava um linchamento virtual. Era a plateia, éramos nós, com nossos celulares em punho, condenando e absolvendo em 280 caracteres. A escola passou. Os carros alegóricos se foram, a chuva de papel picado assentou no asfalto. Ficou o silêncio.

 E, no dia seguinte, os comentários nas redes sociais: "Melhor desfile do ano!", "Que viagem foi essa?", "Isso não é samba-enredo, é panfleto".

E aqui vai minha nota afiada como lâmina de porta-bandeira:

    A  Acadêmicos de Niterói não ganhou apenas nota 10 dos jurados. Ela nos deu um espelho. E o que vimos? Vimos um país que ainda confunde liberdade com bagunça, crítica com perseguição e arte com doutrinação. Vimos que, enquanto discutimos se a fantasia do juiz tinha ou não plumas demais, a Justiça continua torta, a liberdade continua de microfone quebrado e a história, essa danada, continua sendo contada por quem pode pagar o melhor carro alegórico.

  Se o poder treme diante de uma bateria de 300 ritmistas, o problema não está no tambor. Está na fragilidade do trono.

O Carnaval não derruba governos. Mas revela máscaras. E talvez seja isso que mais incomode.

Porque no Brasil, minha gente, a fantasia mais perigosa é aquela que resolve dizer a verdade.

No fim, o desfile acabou. Mas a pergunta ficou, ecoando no vazio da Sapucaí: será que, um dia, vamos aprender a sambar com a nossa própria verdade? Ou vamos continuar, para sempre, como pierrôs tristes, esperando um carnaval que nunca chega?

 A Acadêmicos de Niterói passou. O samba acabou. Mas o cutucão no poder, esse continua doendo. E ainda bem. Porque enquanto doer, há esperança. Enquanto incomodar, há vida. Enquanto houver um espelho na avenida, haverá alguém disposto a olhar para si mesmo mesmo que seja para descobrir que a fantasia mais assustadora é a cara da gente.




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