Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

A FAMÍLIA NA CONVERSA

Por: | 21/02/2026


     No desfile da Acadêmicos de Niterói, o carro alegórico não deixava margem para distração: ali estava a “família tradicional” devidamente enlatada. Rótulo vistoso, selo de pureza, validade impressa na tampa. Um arranjo doméstico transformado em mercadoria ideológica. Não era deboche gratuito; era metáfora. A família como produto industrial, padronizado, esterilizado de conflitos, pronto para consumo eleitoral.

    Dentro da lata, tudo parecia perfeito. Pai austero, mãe submissa, filhos alinhados. Nenhum desemprego, nenhuma violência doméstica, nenhum filho LGBTQIA+, nenhuma avó que cria neto sozinha, nenhum casal homoafetivo ou padrasto aprendendo a amar o filho adotivo ou enteado. A realidade ficava do lado de fora — como se não coubesse no recipiente.

    A imagem era poderosa porque expunha o truque: quando se tenta impor um único modelo de família como legítimo, o que se faz é conservá-la artificialmente, como quem teme que o contato com o ar da vida real a deteriore. Conserva-se para vender. Conserva-se para mobilizar afetos. Conserva-se para distrair.

    E então parte da mídia entra em cena, não para discutir a crítica social contida na alegoria, mas para reduzir tudo a uma suposta ofensa religiosa.

    O debate é empurrado para o subsolo do ressentimento moral. Fala-se em ataque à fé, em desrespeito aos “bons costumes”, enquanto se evita perguntar por que esse tema surge com tanta força justamente quando políticas públicas de caráter social avançam ou tentam se consolidar.

    Não se trata de lacração carnavalesca. Trata-se de compreender por que interesses econômicos, contrariados por um projeto de governo que prioriza os invisíveis, preferem incendiar discussões identitárias de baixo nível. É mais confortável discutir a tampa da lata do que o conteúdo do orçamento. É mais rentável polemizar sobre alegorias do que debater concentração de renda.

    A família verdadeira, real, brasileira não é enlatada. Ela é improviso, é remendo, é reinvenção diária. Está nos interiores amazônicos, nas periferias urbanas, nos apartamentos apertados e nas casas amplas.

É plural porque a vida é plural. Transformá-la em símbolo rígido, imutável, serve menos à fé e mais à estratégia política.

    O carro alegórico fez o que o bom jornalismo deveria fazer sempre: abrir a lata. Mostrar o cheiro da realidade. Permitir que o público perceba que, quando alguém vende família como produto exclusivo, geralmente está oferecendo embalagem — não afeto.

  A pergunta,  que rodopia como uma boa e alegre baiana, é simples e incômoda: quem lucra quando a família vira conserva?


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