Hildeberto Barbosa
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Hildeberto Barbosa

Dedicatórias manuscritas

Por: | 24/02/2026

Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Dedicatórias manuscritas

Não é a primeira vez que escrevo sobre dedicatórias. Gosto dos dois tipos: as impressas e as manuscritas. Tenho, no entanto, uma queda particular pelas últimas, quer sejam dos autores ou não.

Nas minhas visitas aos sebos da cidade, faço questão de adquirir livros velhos que tenham dedicatória manuscrita. Não só porque, de certo modo, este pormenor assegura, no universo curioso da bibliofilia, estatuto de raridade ao livro, mas também porque dedicatórias manuscritas carregam sentimentos, valores e histórias.

A amizade, a admiração, a gratidão, o respeito, o apreço, a homenagem, tudo pode fluir por aquelas poucas palavras que sinalizam para um momento, um encontro, um ritual. Na mais das vezes, são afetuosas. Em algumas circunstâncias, podem se constituir em ocasião de desagravo, desabafo e mesmo agressão. Afinal, nem o sagrado mundo dos livros escapa ao veneno dos desafetos.

Para o bibliófilo, quero crer que isso não importa. Importa, sim, a força viva de um elo que se estabelece entre quem assina a dedicatória, com a singularidade de sua letra, e o destinatário. Afinal, um vestígio qualquer de emoção humana se cristaliza como uma componente a mais na configuração real e simbólica do livro.

Em recente ida ao Sebo Cultural, na loja matriz, situada à Avenida Tabajara, comprei uma edição dos Momentos decisivos do pensamento filosófico, de Luís Washington Vita, da Melhoramentos, de 1964, com a seguinte dedicatória manuscrita:

“Ao caríssimo Pe. Marcos, com especial estima e amizade
Rui, 24/10/1967”.

Pe. Marcos, sabemos, foi reitor por muito tempo do Unipê, Instituto Paraibano de Educação. Homem de cultura filosófica, sobretudo formado na linhagem católica do tomismo, que teve, aqui na Paraíba, representante sistemático na figura do Monsenhor Pedro Anísio.

Rui, me confirma o ilustre e querido confrade Damião Ramos Cavalcanti, é Rui Dantas, amigo pessoal do padre e humanista, leitor estudioso da Suma teológica, do grande teólogo medieval, São Tomás de Aquino, e de Jacques Maritain.

Tal dedicatória valoriza esse exemplar. Na sua singeleza e brevidade, realça o encontro e a convivência de dois intelectuais marcados por profundas “afinidades eletivas”, ainda para me valer da expressão de Goethe. Ambos, mestres na arte de lecionar e educar; ambos, leitores de Luís Washington Vita e amantes fiéis do saber filosófico.

Possuía outro exemplar do mesmo livro, mas não me fiz de rogado. Quis, com esta outra edição adquirida, sobretudo, pela dedicatória manuscrita, que a torna única, inscrever-me nesta escola de amizade, admiração e sabedoria que certas criaturas semeiam por onde passam.


FONTE: Facebook - Acesse

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