A arte de Archidy Picado Filho é, entre outras perspectivas, um reflexo de sua própria personalidade: inquieta, versátil e criativa. Herdeiro do olhar sensível de seu pai, o saudoso mestre Archidy Picado, o artista não apenas carrega um legado, mas o expande, transitando com fluidez entre a literatura, a música e as artes visuais.
Sua obra é um convite para habitar um universo particular, que também é coletivo. Nela, é possível encontrar um mosaico de ironias, dores e alegrias — sentimentos que nascem de sua constante busca por um lugar existencial alternativo ou pela reinvenção de um novo mundo. Como sugerem as reflexões de Paul Auster, o processo criativo de Archidy funciona como um devir existencial: uma transformação contínua na qual a vida e a arte se confundem e se alimentam na tentativa de gerar outras condições de possibilidades de existência.
Mesmo quando utiliza suportes tradicionais, Archidy nos surpreende pela experimentação. Exemplo disso é o uso magistral da caneta esferográfica, transformando um objeto cotidiano em ferramenta de profunda expressão técnica e poética.
Sua prática artística também é um ato de encontro. Fugindo da solidão do ateliê, o artista busca o outro, seja em parcerias com outros artistas ou na interação lúdica com a expressividade da arte infantil — intervindo em desenhos de crianças ou criando ao lado delas, num gesto de mútua descoberta.
Nesta exposição na Pinacoteca da UFPB, o que vemos é a celebração dessa versatilidade. Entre traços minuciosos de esferográfica e obras criadas a quatro mãos, junto com outras produções artísticas, Archidy Picado Filho reafirma seu talento em instigar o individualismo em coletividade, prestando homenagens e provando que a arte pode ser, também, uma ponte entre uma árdua realidade para uma outra mais humana e poética.
João Pessoa, fevereiro de 2026.
Prof. Dr. Erinaldo Alves do Nascimento
Departamento de Artes Visuais UFPB
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