Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

O SILÊNCIO DOS DESEMBARGADORES


Por: | 26/02/2026


Crônica sobre o caso Magid Nauêf e a engrenagem que tritura crianças

   Há dias em que a notícia nos entra pelos olhos como um caco de vidro. Hoje acordei com o rosto de uma criança estampado nas entrelinhas de um inquérito. Magid Nauêf, desembargador, agora investigado por abuso sexual. O título parece frio, burocrático desses que cabem em quatro centímetros de coluna de jornal. Mas por trás dele há o corpo pequeno de alguém que ainda não aprendeu a dizer "não" para um homem de toga.

   Eu, que já fui mãe de colo, que já lavei o rosto sujo de terra e lágrima de filho, que já ensinei "não se sente no colo de estranhos" eu sei o que significa uma criança chegar em casa com o silêncio pesado. O silêncio da vergonha que não é dela. O silêncio que os adultos chamam de "proteção" e "não se mete em briga de gente grande".

Eis que a "gente grande" agora usa beca.

   O caso Nauêf não é apenas mais um escândalo nos tribunais. É a fotografia do que acontece quando o poder veste a toga e esquece que por baixo dela há um corpo, há desejos, há a podridão que o cargo deveria combater. Porque o abusador não vem sempre com cara de monstro. Vem de terno, vem de vara, vem de assinatura em papel timbrado. E a criança? A criança é só um processo com nome, com medo, com testemunho que ninguém quer ouvir.

   Li as fontes, os despachos, os andamentos. E vi o que todo mundo vê: o corporativismo que engaveta, o "ele é um homem respeitado", o "fulano sempre foi íntegro". Ah, essa palavra íntegro que usam como escudo para esconder o que os olhos da Justiça não querem ver. Porque investigar um desembargador é investigar a si mesmo. É abrir a gaveta dos podres e sentir o cheiro do que apodreceu no almoxarifado da moral.

  Como avó, me pergunto: o que dizemos às crianças quando elas perguntam "por que ele não foi preso?" O que respondemos quando explicamos que o homem que deveria proteger os direitos é o mesmo que os violou? Não há resposta que baste. Há apenas o nó na garganta e a certeza de que a Justiça, muitas vezes, é um clube onde os sócios se protegem.

  Mas há algo que me agarra como uma tábua de salvação nesse mar de náusea: a imprensa que investiga, as mulheres que denunciam, os poucos tão poucos que ousam furar o bloqueio. Porque se hoje sabemos do nome Magid Nauêf, se o caso não virou pó no arquivo morto, é porque alguém disse "basta". É porque uma mãe, uma avó, uma mulher qualquer resolveu não calar.

E nós, mulheres, sabemos o preço de não calar.

   Sabemos que denunciar um homem de poder é ser chamada de louca, interesseira, mentirosa. Sabemos que o abuso começa no toque e termina na dúvida que jogam sobre nossa palavra. Mas também sabemos que o silêncio é cúmplice. E que, no fim, a história será contada não pelos que julgaram, mas pelos que tiveram coragem de abrir a boca.

    Que este caso não morra nas gavetas. Que as crianças vulneráveis encontrem, enfim, um tribunal que as acolha. Que os desembargadores lembrem, antes de vestir a toga, que um dia também foram pequenos e que a infância não tem defesa contra o poder, a não ser que o poder decida, ele mesmo, proteger a infância.

Porque não há sentença mais grave do que o silêncio de um magistrado diante do choro de uma criança.

   Fontes consultadas: Inquérito em tramitação no Tribunal de Justiça, reportagens do UOL e Estadão sobre a investigação, artigos sobre abuso sexual infantojuvenil e violência institucional.




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