
Se estivesse por aqui provavelmente implicando com a tecnologia e dizendo que “no meu tempo telefone tinha fio e respeito” meu pai completaria 84 anos.
Oitenta e quatro.
É uma idade bonita. Tem cara de quem já entendeu o mundo, mas ainda guarda bala no bolso para oferecer ao neto escondido da mãe.
Ele nasceu numa colônia de italianos imigrantes, desses lugares onde a polenta era quase uma religião e o sobrenome valia mais que escritura de terra. Cresceu aprendendo que homem de verdade não é o que fala alto é o que cumpre a palavra. E cumpriu.
Foi bom pai.
Mas, sobretudo, foi meu melhor amigo.
O que é uma ousadia, porque pai geralmente vem com manual de autoridade embutido. O meu vinha com manual de humanidade. Sabia a hora de ensinar e a hora de rir. Sabia o silêncio necessário quando o mundo me machucava. E tinha aquele olhar… um olhar que parecia saber da vida antes da vida acontecer.
Ele me dizia:
Você é uma camaleoa.
Eu achava que era crítica. Depois entendi que era bênção. Ele via em mim a capacidade de adaptação, de sobrevivência, de reinvenção. E completava, com aquela poesia que ele fingia não ter:
Tem olhos como uma margarida na primavera.
Agora me explica: como é que um homem criado na roça italiana, entre enxadas e responsabilidades precoces, aprende a comparar a filha com flor?
Pai é isso: o primeiro homem que nos ensina como devemos ser amadas. É régua invisível. É medida interna. É a voz que ecoa quando alguém nos trata menos do que merecemos e a gente pensa: “Meu pai não acharia isso certo.”
Hoje eu senti saudade da voz dele.
Saudade física. Saudade que pesa no peito como se fosse objeto esquecido ali dentro. Chorei. Chorei como filha, não como mulher forte. Porque a gente pode ser camaleoa, margarida, cronista, mãe, avó… mas diante da ausência do pai, a gente volta a ser menina.
E menina chama baixinho:
Pai… Paizinho ...
Gosto de pensar que, onde ele estiver, está orgulhoso. Talvez contando vantagem para algum anjo distraído:
Aquela ali? É minha filha. Camaleoa. Olhos de primavera.
Se ele me ensinou algo maior que qualquer conselho foi isto: caráter é o único patrimônio que ninguém confisca. E amor não precisa de discurso precisa de presença. Ele esteve. Inteiro.
Há pais que dão coisas.
Há pais que dão exemplo.
O meu me deu horizonte.
E se hoje escrevo, sinto, amo, insisto, resisto… é porque um homem simples, nascido numa colônia de italianos, me ensinou que a vida pode ser dura sem deixar de ser bonita.
Pai,
se o senhor estiver me ouvindo e eu desconfio que esteja
saiba que a camaleoa aqui continua mudando de cor, mas nunca de raiz.
Eu te amo, paizinho.
E hoje, 84 vezes, eu repetiria isso no seu ouvido só para ouvir o senhor responder com aquele riso curto, quase tímido, de quem nunca soube o tamanho que tinha.
Te amo todos os dias
Sua filhinha, Alessandra.
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