
Crônica de uma Inutilidade Persistente
O céu de Teerã amanhece pesado. Não é apenas poluição, nem apenas nuvem. É a vibração invisível que antecede o impacto. O som que vem antes do fogo. Não é metáfora é tecnologia. É cálculo. É decisão humana transformada em míssil.
De um lado, o Irã, herdeiro de impérios antigos, agora reduzido à tensão nuclear e à retórica inflamável.
Do outro, Israel, nação erguida sobre a memória do extermínio, vivendo sob o fantasma permanente da ameaça existencial.
Nos bastidores, como força gravitacional inevitável, os Estados Unidos, equilibrando poder com bombas, diplomacia com dissuasão armada.
E atravessando fronteiras, o Hezbollah, simultaneamente partido, milícia e sintoma de uma região que nunca cicatrizou.
Mas a geopolítica é uma narradora fria. Ela fala em “alvos estratégicos”, “resposta proporcional”, “ataques preventivos”. A geopolítica transforma mortos em números e crianças em estatística.
A realidade não é estratégica.
Ela é humana.
Hoje não se fala mais em tensão. Fala-se em ataques diretos, retaliações cruzadas, bases atingidas, drones atravessando céus como mosquitos metálicos. O conflito deixou de ser ameaça abstrata tornou-se explosão concreta.
Mas o que realmente se expande não é território.
É o luto.
Uma escola atingida. Um prédio residencial desabado. Sirenes que interrompem o sono de quem já dormia com medo. A cada ofensiva, um líder fala em segurança nacional. A cada contra-ataque, outro fala em soberania. No meio, mães seguram roupas pequenas demais para caber num caixão.
A guerra é curiosa: começa com palavras grandes e termina com silêncios imensos.
Israel teme deixar de existir.
O Irã teme ser sufocado.
O Hezbollah se apresenta como resistência e age como força armada.
Os Estados Unidos falam em estabilidade enquanto alimentam o tabuleiro.
Todos se dizem defensores.
Ninguém se assume agressor.
É uma guerra de autodefesas que se atacam.
Há algo profundamente perturbador na eficiência moderna da violência. A humanidade criou inteligência artificial, mapeamento orbital, sistemas de interceptação. Desenvolvemos mísseis “inteligentes”.
Mas eles não distinguem um comandante de uma criança correndo para casa.
A civilização avançou a consciência, nem tanto.
A guerra hoje não é mais trincheira e lama. É tela digital, coordenada geográfica, clique remoto. É a capacidade de destruir sem olhar nos olhos. Talvez seja isso que a torna mais fácil.
E mais perigosa.
Por que ainda existem guerras?
Porque a guerra simplifica o mundo.
Ela oferece ao homem comum uma identidade clara: “nós” contra “eles”.
A paz exige nuance. Exige reconhecer que o outro também tem medo.
A guerra é mais confortável. Ela absolve.
Transforma complexidade em bandeira.
Reduz história em slogan.
E, sejamos honestos, há interesses que prosperam na fumaça. A indústria da reconstrução começa antes mesmo de a destruição terminar.
Mas nenhuma análise estratégica sobrevive à imagem de um pai carregando o corpo do filho. Nenhum argumento de segurança nacional resiste ao sapato infantil perdido nos escombros.
A honra de uma nação não está na precisão do seu míssil.
Está na preservação da sua gente.
E quando crianças morrem de qualquer lado não há vitória. Há apenas falência moral compartilhada.
Talvez o mais trágico seja perceber que a guerra não é acidente. Ela é escolha. Repetida. Justificada. Aplaudida por alguns, temida por todos.
Não começou agora. Não começou neste governo ou naquele regime. Começou quando aprendemos a temer mais do que compreender. Quando preferimos reagir a dialogar. Quando transformamos trauma em política permanente.
A guerra não nasce do poder.
Nasce do medo.
Medo de desaparecer.
Medo de perder influência.
Medo de parecer fraco.
E o medo armado vira destruição.
O sol continua nascendo sobre Teerã, Tel Aviv, Beirute, Washington. A natureza insiste na rotina. A humanidade insiste no confronto.
Chamamos isso de estratégia.
Chamamos de dissuasão.
Chamamos de equilíbrio.
Mas, no fundo, é a mesma velha tragédia: a incapacidade humana de admitir que o outro sofre como eu.
A guerra que hoje se espalha pelo noticiário é apenas a forma ampliada de uma falha íntima: a dificuldade de reconhecer humanidade no adversário.
E enquanto não aprendermos essa lição elementar, continuaremos chamando de “solução” aquilo que é apenas o adiamento da próxima explosão.
A sombra permanece.
A fúria também.
E as crianças que nada decidiram continuam pagando a conta da nossa covardia histórica.
A guerra não prova força.
Prova que ainda não aprendemos a ser plenamente humanos.
(Cronista contra o genocídio)
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