Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A SOMBRA E A FÚRIA


Por: | 02/03/2026


Crônica de uma Inutilidade Persistente

  O céu de Teerã amanhece pesado. Não é apenas poluição, nem apenas nuvem. É a vibração invisível que antecede o impacto. O som que vem antes do fogo. Não é metáfora é tecnologia. É cálculo. É decisão humana transformada em míssil.

    De um lado, o Irã, herdeiro de impérios antigos, agora reduzido à tensão nuclear e à retórica inflamável.

Do outro, Israel, nação erguida sobre a memória do extermínio, vivendo sob o fantasma permanente da ameaça existencial.

   Nos bastidores, como força gravitacional inevitável, os Estados Unidos, equilibrando poder com bombas, diplomacia com dissuasão armada.

  E atravessando fronteiras, o Hezbollah, simultaneamente partido, milícia e sintoma de uma região que nunca cicatrizou.

Mas a geopolítica é uma narradora fria. Ela fala em “alvos estratégicos”, “resposta proporcional”, “ataques preventivos”. A geopolítica transforma mortos em números e crianças em estatística.

A realidade não é estratégica.

Ela é humana.

  Hoje não se fala mais em tensão. Fala-se em ataques diretos, retaliações cruzadas, bases atingidas, drones atravessando céus como mosquitos metálicos. O conflito deixou de ser ameaça abstrata tornou-se explosão concreta.

Mas o que realmente se expande não é território.

É o luto.

  Uma escola atingida. Um prédio residencial desabado. Sirenes que interrompem o sono de quem já dormia com medo. A cada ofensiva, um líder fala em segurança nacional. A cada contra-ataque, outro fala em soberania. No meio, mães seguram roupas pequenas demais para caber num caixão.

A guerra é curiosa: começa com palavras grandes e termina com silêncios imensos.

Israel teme deixar de existir.

O Irã teme ser sufocado.

O Hezbollah se apresenta como resistência e age como força armada.

Os Estados Unidos falam em estabilidade enquanto alimentam o tabuleiro.

Todos se dizem defensores.

Ninguém se assume agressor.

É uma guerra de autodefesas que se atacam.

 Há algo profundamente perturbador na eficiência moderna da violência. A humanidade criou inteligência artificial, mapeamento orbital, sistemas de interceptação. Desenvolvemos mísseis “inteligentes”.

Mas eles não distinguem um comandante de uma criança correndo para casa.

A civilização avançou a consciência, nem tanto.

  A guerra hoje não é mais trincheira e lama. É tela digital, coordenada geográfica, clique remoto. É a capacidade de destruir sem olhar nos olhos. Talvez seja isso que a torna mais fácil.

E mais perigosa.

  Por que ainda existem guerras?

Porque a guerra simplifica o mundo.

Ela oferece ao homem comum uma identidade clara: “nós” contra “eles”.

A paz exige nuance. Exige reconhecer que o outro também tem medo.

A guerra é mais confortável. Ela absolve.

Transforma complexidade em bandeira.

Reduz história em slogan.

  E, sejamos honestos, há interesses que prosperam na fumaça. A indústria da reconstrução começa antes mesmo de a destruição terminar.

 Mas nenhuma análise estratégica sobrevive à imagem de um pai carregando o corpo do filho. Nenhum argumento de segurança nacional resiste ao sapato infantil perdido nos escombros.

A honra de uma nação não está na precisão do seu míssil.

Está na preservação da sua gente.

E quando crianças morrem de qualquer lado não há vitória. Há apenas falência moral compartilhada.

  Talvez o mais trágico seja perceber que a guerra não é acidente. Ela é escolha. Repetida. Justificada. Aplaudida por alguns, temida por todos.

Não começou agora. Não começou neste governo ou naquele regime. Começou quando aprendemos a temer mais do que compreender. Quando preferimos reagir a dialogar. Quando transformamos trauma em política permanente.

A guerra não nasce do poder.

Nasce do medo.

Medo de desaparecer.

Medo de perder influência.

Medo de parecer fraco.

E o medo armado vira destruição.

  O sol continua nascendo sobre Teerã, Tel Aviv, Beirute, Washington. A natureza insiste na rotina. A humanidade insiste no confronto.

Chamamos isso de estratégia.

Chamamos de dissuasão.

Chamamos de equilíbrio.

Mas, no fundo, é a mesma velha tragédia: a incapacidade humana de admitir que o outro sofre como eu.

   A guerra que hoje se espalha pelo noticiário é apenas a forma ampliada de uma falha íntima: a dificuldade de reconhecer humanidade no adversário.

E enquanto não aprendermos essa lição elementar, continuaremos chamando de “solução” aquilo que é apenas o adiamento da próxima explosão.

A sombra permanece.

A fúria também.

 E as crianças que nada decidiram continuam pagando a conta da nossa covardia histórica.

A guerra não prova força.

Prova que ainda não aprendemos a ser plenamente humanos.

(Cronista contra o genocídio)




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