Por: | 03/03/2026
LETRA LÚDICA
Hildeberto Barbosa Filho
Jairo Cézar e o Abc dos bichos
Digamos que existe uma literatura infantil. Um de seus traços marcantes reside na hibridez da linguagem. O signo verbal se mistura com o signo visual numa ordem sintática nova, para além do mero lógico-discursivo, na medida em que explora os espaços da página, socorrendo-se o autor de elementos tipográficos, diagramação, alinhamento, desenhos e outros investimentos icônicos. Tudo, a fim de semantizar, o máximo possível, o corpo da prosa ou do poema.
Ocorre-me esta breve reflexão porque acabo de ler e ver, decodificar e apreciar, o mais recente livro do poeta e professor paraibano, Jairo César, ABC dos Bichos, com ilustrações do artista campinense, Thayroni Arruda (João Pessoa: Editora A União, 2025).
Jairo Cézar não é estreante nessa vertente. O menino que roubava gaiolas (2018) já emite os primeiros sinais de uma escrita poética que pode atrair crianças e adultos, tanto pela forma quanto pelo conteúdo mobilizados na pauta dos versos. Linguagem acessível, com valorização do coloquial; dinâmica imagética, senso de humor, apelo à imaginação, presença do poético e do fantasioso se mesclam na tessitura da trama em que mergulha o personagem.
Com ABC dos bichos, tais características se intensificam, uma vez que ambas as linguagens, isto é, a palavra e as imagens, na sua profusão de traços, linhas e cores, como que convergem em rigorosa isomorfia, em criativa combinação, em frutífera fusão do estético com o lúdico, num texto que desafia o gosto de quem olha, de quem imagina e de quem pensa.
No que concerne, em especial, ao ingrediente idiomático, ao uso contido da palavra, diria que o poeta se radica nas fronteiras de um minimalismo quase à oriental. Percorrendo o alfabeto, letra por letra, exercita, qual um fotógrafo de instantâneos e de closes, uma descrição sutil, e ao mesmo tempo surpreendente, dos bichos que constituem seu bestiário particular.
Alguns dos poemas me soam como livres haicais, sobretudo, pela contensão expressiva e pela objetividade imagética a dilatarem o fluxo imaginário do observador e do leitor. “Hamster” é um bom exemplo:
A lua em queijo
faz do céu uma via-láctea
Ele rói a noite
Da mesma linhagem poética, poderia citar os poemas “Mosca”, “Pardal”, “Rouxinol” e “Tartaruga”, para comprovar um pouco dessa metodologia do pequeno e do miúdo para a qual me chama a atenção a percepção do poeta.
A propósito, afora alguns animais de porte médio ou mesmo grande, a exemplo do burro e do elefante, entre outros, o poeta se volta para uma fauna rasteira e quase despercebida das experiências sensoriais.
De minha parte, louvo essa preferência pelo menor. E louvo principalmente a empatia humana e o humor carinhoso, num viés de índole lírica que me lembra muito Manuel Bandeira, ou, em outra clave, Manoel de Barros, quando Jairo Cézar fala da aranha, do grilo, do sabiá, do xexéu e, sobremaneira, do vaga-lume. Este, com certeza, aparece num poema de sagração ontológica. Leia comigo, leitor:
Estrela indecisa
que cabe na mão
Não sabe se brilha
ou escuridão
A tudo isso se somam as cores e as formas com que Thayroni Arruda emoldura o a textura das páginas. E para quê? Para que se faça, através da poesia, em signos e ícones, uma pequenina ode à ecologia tropical, sem ranço didático e sem moralismo preconcebido. Isto assegura aos poemas de Jairo Cézar não só o atributo de “poesia infantil”, mas também de poesia da melhor qualidade.