
Tanto faz matar um aiatolá no Irã quanto matar um papa no Vaticano?
A pergunta soa brutal, quase indecente. Mas é justamente essa indecência que revela o quanto nos acostumamos a hierarquizar vidas segundo a geopolítica do momento.
Quando um líder religioso islâmico é alvo de ataque, parte do mundo ocidental reage com cálculo estratégico. Analisa-se o impacto no preço do petróleo, no equilíbrio militar, na estabilidade regional. Quando se imagina um atentado contra o Papa, o choque é imediato, quase civilizacional. Fala-se em barbárie, em agressão à fé, em atentado contra a própria humanidade.
Mas o que diferencia estruturalmente um aiatolá de um papa? Ambos são líderes espirituais. Ambos representam milhões de fiéis. Ambos influenciam decisões políticas, direta ou indiretamente. No caso iraniano, o aiatolá, como Ali Khamenei, concentra poder religioso e institucional. No Vaticano, o papa não comanda exércitos, mas move consciências e governos por meio da palavra.
A diferença, então, não está na sacralidade do cargo. Está no olhar de quem observa.
O Ocidente construiu para si a ideia de que sua simbologia religiosa é universal, enquanto a do outro é regional, exótica ou ameaçadora.
Quando a violência atinge o “nosso” símbolo, é terrorismo contra a civilização. Quando atinge o “deles”, é episódio de guerra, ajuste estratégico, dano colateral.
Essa assimetria revela mais sobre nós do que sobre eles. Revela que a vida humana continua submetida à lógica do bloco, da aliança militar, da narrativa dominante. Revela que ainda classificamos o luto segundo o passaporte da vítima.
Não se trata de defender regimes, nem de santificar lideranças políticas travestidas de fé. Trata-se de reconhecer que assassinar um líder religioso, qualquer que seja sua tradição, é um ataque simbólico profundo contra milhões de pessoas que se veem representadas naquela figura.
Se relativizarmos uma morte porque o morto pertence ao “outro lado”, deixamos de discutir o valor universal da vida e passamos a discutir conveniência estratégica.
Mas quando a conveniência substitui o princípio, a ética vira instrumento diplomático, não convicção
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