Por: | 08/03/2026
ELAS ESTÃO Aí!
Hildeberto Barbosa Filho
Elas estão aí!
Não, sempre estiveram, embora em plano secundário, amordaçadas pelo preconceito, pelo silêncio e pela violência perpetrados contra elas. Usadas e abusadas, eram mais objetos que sujeitos da história. Mas elas resistiram, lutaram, conquistaram o que lhes era de direito e agora atuam de igual para igual e a seu jeito próprio no planeta dos humanos.
É verdade: elas estão aí!
Finalmente chegaram e chegaram, parece, no tempo devido e na hora adequada. Chegaram, e como chegaram! Certamente o mundo estaria melhor se elas tivessem chegado mais cedo. Com elas certamente não teríamos chegado aonde chegamos. Com elas o que é barbárie poderia se transformar em civilização.
No meu acanhamento e no meu desamparo diante de sua beleza, do seu mistério e da sua sabedoria, como que intuí suas secretas e refinadas habilidades com que sabem lidar com as coisas da vida.
Não ouso me referir aos afazeres estereotipados com que selaram seu território nas sombras da rotina privada. Como se isso, como se aquilo fosse coisa menor e menos importante diante do ato de guerrear, caçar, gerir, pensar, comandar povos, empresas, negócios e mesmo o destino dos Estados.
Nem vou entrar no mérito da questão. Sou um simples cronista, um cronista de província, não muito afeito ao racionalismo cartesiano dos artigos de jornal. Cronista, tenho uma queda toda especial pela espessura lírica das coisas e dos fenômenos. Portanto, desculpe-me , caro leitor, se não vou desenvolver silogismos factuais e persuasivos em torno de acontecimento tão candente e tão extraordinário.
O que sei, e sei que não estou errado, é que elas chegaram. Chegaram e se apresentam, se mostram e se revelam em todos os espaços das vivências sociais, sempre com um toque singular, delicado e estético, estético e firme, firme e competente, competente e ousado, em tudo que fazem.
Seja na casa ou no lar, na escola, na Igreja; seja na praça, na rua, no bar ou no cabeleireiro; seja na edilidade, nas assembleias, nos tribunais, nas academias, nos transportes, na praia, no campo, no dia e na noite, até mesmo no ar sonado que embebe a volúpia de nossos sonhos e de nossos desejos, elas comparecem e se comprazem realizando tudo com a saborosa garantia da feminilidade. Ou, ainda, da humanidade, porque elas são humanas, somente humanas, portanto, com perfeições e imperfeições, grandezas e fracassos, virtudes e defeitos, carências e esperanças, razão e emoção, corpo e alma, yin e Yang.
Para mim (e aqui me penitencio pelo tom lúdico e brincalhão da fantasia), elas são lindas e quase mágicas quando fazem as unhas e raspam as pernas, dirigem caminhonete e comentam futebol. Para mim, são mais cuidadosas e éticas nas relações com o outro. Para mim, sabem tocar o poder sem crueldade, com eficácia, eficiência, efetividade e poesia. Sim, para mim, elas são as melhores imagens para a composição dos melhores poemas, os versos perfeitos.
Até nos esportes ditos masculinos elas brilham com outras luzes e se vestem com outras cores, trazendo, não raro, um rasgo de ternura, um charme e uma sutileza que perfumam as tardes no gramado, a suavidade do tatame e o imponderável do octógono. Aqui, em particular, parece que trazem a poesia nos punhos e nos ensinam que há qualquer coisa de belo na violência dos combates.
Elas estão aí! Ninguém duvide! Fazem de tudo, e muitas coisas fazem melhor.
Atletas, senadoras, deputadas, presidentes, motoristas, manicures, professoras, enfermeiras, cientistas, camponesas, operárias, executivas, proprietárias, prostitutas, estrelas, santas, elas estão aí. Todas nuas, todas sábias, todas seminais, na candidez e na ternura vívida e maternal da linguagem. De corpo e de alma, inteiramente.
Repito: Elas estão aí!
Elas chegaram. Chegaram para ficar, definitivamente. Do nosso lado, conosco, por dentro de nós, na deliciosa orgia da fraternidade. Já não sabemos viver sem elas (soubemos em algum tempo?). Vamos aprender com elas que só somos diferentes, que só somos iguais.
(Do livro Gabi voltou. João Pessoa: Ideia, 2021)