João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

O SUBSTITUTO

Por: | 13/03/2026

O SUBSTITUTO
João Batista de Brito
Verídica, a história aconteceu ao amigo Silvino Espinola, que me permitiu narra-la em primeira pessoa verbal:
Estudante do Liceu paraibano nos anos 60, não me furtei aos apelos ideológicos da época, e participei de passeatas estudantis contra a Ditadura. Quando veio o AI-5, meus pais me deportaram para Recife, onde, por ordem paterna, tentei me abster de manifestações públicas.
Residindo em discreta pensão, investi nos estudos e prestei vestibular para Medicina, na Universidade Federal de Pernambuco. Fui aprovado, porém, no primeiro dia de aula, ao me dar conta do que se espera de um acadêmico de medicina, desisti do curso.
Hoje pode ser diferente, mas naquela época, uma desistência devidamente comunicada à coordenação do curso, abria vaga para o aluno que tivesse conseguido a nota imediatamente inferior ao desistente. Ora, como estávamos numa época de insegurança legal, tomei a iniciativa de cobrar da coordenação o nome e endereço do aluno que ganharia a minha vaga. Queria ter certeza de que não haveria trapaça.
E não fiz só isso. No mesmo dia, tomei um ônibus e fui no encalço do meu “substituto”, para lhe comunicar o fato.
O local era precário, uma favela distante, de casas pobres, ruas tortas e enlameadas. Atendeu-me a mãe do rapaz, uma mulher humilde que, chorosamente agradecida, me disse para esperar um pouquinho, que o marido e o filho já chegavam.
Quando os dois chegaram e ouviram a notícia, foi euforia pura. O rapaz ia ingressar na universidade e ia ser médico: a notícia foi compartilhada com a vizinhança, e daí a pouco o casebre estava abarrotado, com gente dentro e fora. Grades de cerveja foram providenciadas, com tira-gostos improvisados e tudo mais: um festão que durou o resto do dia e entrou pela noite. Quando aleguei que era hora de ir embora, não me deixaram sair, e, para resumir, varei a noite na farra, e cheguei em casa com o sol na cara. Dormi o dia todo, acordei ressacado, a cabeça doendo, mas feliz de ter proporcionado aquela felicidade à gente tão boa e merecedora.
Depois disso, perdi o meu “substituto” de vista. Fui cursar Psicologia na Universidade Católica, como se sabe, bem distante da Federal.
Uns três anos adiante, porém, ia eu pela Conde da Boa Vista quando avistei um grupo de acadêmicos de medicina, todos em jalecos brancos, vindo em minha direção, a uns cem metros de mim. Vinham descontraídos, alegres, sorridentes, e, entre eles, distingui o meu “substituto”. Fiquei feliz de vê-lo, mas a felicidade nada durou. Ao me avistar, o rapaz largou a turma e, correndo feito louco, atravessou a rua, quase atropelado pelos carros, em direção à outra calçada, e continuou, apressado, sem olhar para o lado em que eu estava, alheio aos chamados dos colegas, que nada entenderam do que acontecia. Nem eu.
Ou será que entendi? Aquela fuga teria sido receio de que a minha presença pudesse trazer as circunstâncias de sua aprovação, ou, talvez mais que isso, a pobreza de suas origens na presença de colegas ricos? Obviamente, eu não ia tocar em tais assuntos; queria só abraçá-lo e reafirmar minha alegria de vê-lo tão bem.
Enfim, o incidente me trouxe uma tristeza profunda, que se somava às decepções que venho, ao longo da vida, alimentando com a raça humana. Passei dias acabrunhado, mas, afinal, esqueci.
Findo o meu curso universitário, retornei a João Pessoa, onde passei a atuar como professor no curso de comunicação da Universidade Federal da Paraíba. O que fiz, com muito prazer, até a aposentadoria. Mas nunca deixei de visitar Recife, cidade com tantas e tão diversas atrações e onde fiz muitos amigos.
Pois bem, passados dez ou doze anos após o triste incidente com o meu “substituto”, estava eu de novo em Recife, caminhando por uma de suas avenidas do centro, quando, por mero acaso, vejo, numa esquina movimentada, a fachada vistosa de uma importante Clínica de Dermatologia onde um letreiro luminoso ostentava três nomes de médicos: um deles era o do meu “substituto”.
Nunca tive problemas de pele, mas confesso que me bateu uma vontade danada de entrar ali, pedir consulta, e então...
É claro que não fiz isso.


FONTE: Facebook - Acesse

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