SERÁ QUE ELA ESTÁ?
João Batista de Brito
Tenho vergonha de contar a história, mas conto assim mesmo. Foi o que aconteceu na ocasião em que fiquei sabendo que as mulheres menstruavam.
Eu já era um marmanjo de dezoito anos de idade, e sempre vivera, lá em casa, rodeado de mulheres (cinco irmãs) que, claro, sempre esconderam de mim os seus problemas mais íntimos. Estávamos em plenos anos sessenta, mas, sabe como é, a revolução sexual ainda não aportara em João Pessoa...
Na época eu fazia o curso clássico no Liceu paraibano, turno da noite, e sempre depois das aulas, vinha caminhando, com alguns colegas que também moravam em Jaguaribe, até os abençoados batentes da Igreja do Rosário, onde sentávamos pra intermináveis papos, geralmente sobre política. De Marx a Josué de Castro, nada escapava das nossas discussões.
Nessa noite, porém, não sei como, o papo caiu em coisas de mulher, e um dos amigos, de conhecimento mais enciclopédico que os outros, de repente, começou a nos dar, com todos os detalhes científicos, uma verdadeira aula sobre menstruação. Eu, que nunca ouvira falar de nada parecido, fiquei pasmo em saber daquilo tudo, e, pior, que aquilo tudo acontecia todo mês a todas as mulheres do mundo.
Fui dormir impressionado com o fato, muito mais do que com o materialismo dialético e a luta de classes. Eu, patofóbico desenganado, que, ainda hoje, quando fazendo a barba, por acidente me corto e vejo o sangue, acho que vou morrer, não concebia que uma criatura vivesse a sangrar pelo mundo afora, fazendo de conta que estava tudo bem.
Na manhã seguinte, como sempre fazia, acordei cedo e, ainda em jejum, fui ajudar meu pai no balcão da nossa pequena padaria. E não teve jeito: pra toda freguesa que chegava eu olhava preocupado, me indagando: “será que ela está?”. E de tanto me indagar, daí a pouco, tudo à minha frente foi ficando avermelhado, e aí, fui me sentindo estranho, até o mal-estar tomar conta de mim de vez. Fraco, desequilibrado, precisava correr ao banheiro da padaria, pra lavar o rosto e respirar, porém, no meio do caminho simplesmente arriei, desfalecido, por sobre os pobres dos padeiros que, na ocasião, estavam sentados em roda no chão, onde tomavam o seu habitual café matinal.
Voltei a mim com os padeiros me segurando pelos ombros e me esfregando nas ventas um pano molhado com álcool. Fui levado pra casa e minha mãe me serviu um bom café. Acho que falou em médico, mas descartei a ideia, alegando que não era nada, que tinha sido o jejum e o cansaço...
Depois daquele dia, fiquei olhando as mulheres de modo diferente. Lembro que quando tomava um ônibus, fazia questão de dar lugar a alguma mulher que estivesse em pé, e não era propriamente cavalheirismo, era preocupação mesmo. Quando acontecia de o ônibus lotar e algumas mulheres permanecerem em pé, eu me desesperava, por elas e por mim também, pois temia ser acometido de outro desmaio ridículo, agora em local público.
Fiquei, a partir de então, admirando muito minhas irmãs, que faziam serviços domésticos e estudavam sem perder ano. Eu, se fosse uma delas, certamente teria problemas para fechar um ano letivo pois, a cada mês, eu, com certeza, iria passar uma semana em casa, coitado, estirado numa cama, pálido, frágil, inapetente, e provavelmente com seguidas crises de choro... Deus me acuda!
Evidentemente, com o passar do tempo fui amadurecendo e me acostumando com a realidade dos fatos.
Mas, com relação à minha ignorância da juventude, pude, um dia, constatar que não fui um caso isolado, e que até gente famosa passara pelo mesmo.
Imaginem o quanto me diverti ao ler uma certa história sobre Alfred Hitchcock, o cineasta que mais amo. Contam os biógrafos que, aos vinte e poucos anos de idade, rodando um dos seus primeiros filmes, o futuro mestre do suspense avisou à equipe de produção que estava na hora de filmar aquela cena em que a protagonista mergulhava na piscina. O pessoal da produção veio informar ao cineasta que, naquele dia, a atriz não estava podendo mergulhar, e Hitch, indignado, quis saber o porquê. Por mais que lhe explicassem que, em certos dias do mês, as mulheres não tomam banho de piscina, o diretor não entendia e, pior, não aceitava esse suposto capricho da atriz. Até que um dos técnicos puxou-o para um lado, e, discretamente, lhe deu – como fez meu amigo comigo – uma mui instrutiva aula de medicina.
Tudo bem que o futuro autor de “Um corpo que cai” não desmaiou, mas, também, vocês querem o quê? Hitchcock é Hitchcock, e eu sou eu.
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