
Existe uma pressa curiosa no ar, uma urgência quase febril em transformar suspeitas em enredo e enredo em sentença. Não se trata apenas de informar, pois informar exige tempo, contexto, apuração. Mas a pressa de costurar uma narrativa que já nasce com vilão escolhido, ainda que os fatos insistam em não obedecer ao roteiro.
No caso do chamado escândalo do Banco Master, o que se vê não é apenas a cobertura de um episódio financeiro nebuloso. É algo mais elaborado, mais sofisticado: a tentativa de construir uma linha invisível que ligue o episódio ao governo, como se toda turbulência econômica precisasse, necessariamente, encontrar abrigo no Palácio do Planalto. Não importa se os elos são frágeis, se a cronologia não se sustenta, se os personagens não se conhecem - o importante é sugerir. E, sugerindo, plantar.
O mesmo método reaparece nas fraudes contra aposentados. Uma tragédia social concreta, que exige investigação séria e punição exemplar, vai sendo lentamente contaminada por insinuações laterais. De repente, surgem personagens periféricos, relações improváveis, aproximações forçadas. O filho do presidente vira peça de um quebra-cabeça que ninguém conseguiu montar — mas que, ainda assim, é exibido como se estivesse completo. A figura de um burocrata qualquer, reduzido à caricatura do “careca do INSS”, passa a ser ponte imaginária para um núcleo de poder que, até prova em contrário, não aparece em nenhum documento consistente.
Não é ingenuidade. É método.
Sabe-se, há muito, que a vida financeira da família Lula da Silva foi revirada com o afinco de quem procura não apenas irregularidades, mas confirmações para suspeitas previamente estabelecidas. Vasculhou-se tudo: contas, imóveis, doações, movimentações. Criou-se uma lupa permanente. E, no entanto, aquilo que se buscava com tanto empenho jamais se materializou de forma definitiva.
Diante disso, resta o quê? A narrativa.
A narrativa é mais flexível que o fato. Ela permite saltos, atalhos, conexões por afinidade ideológica, por conveniência editorial ou por necessidade de audiência. Ela não precisa provar, basta insinuar com elegância. Não acusa diretamente, apenas “levanta questionamentos”. Não afirma, “coloca sob análise”.
Assim se constrói um ambiente onde a dúvida não é ponto de partida para investigação, mas ponto de chegada para condenação moral.
O problema não está apenas em quem conta a história, mas no efeito cumulativo dessas histórias mal contadas. Aos poucos, vai-se formando uma percepção difusa, uma sensação de que “há algo ali”, mesmo que esse “algo” nunca se revele de forma concreta. É o triunfo da névoa sobre a evidência.
No jornalismo, a responsabilidade não é apenas com o que se diz, mas com o que se sugere. Muitas vezes, é na sugestão que mora o veneno mais persistente.
E quando a narrativa passa a anteceder o fato, o risco deixa de ser apenas o erro, passa a ser a fabricação deliberada de uma realidade paralela, onde a verdade já não precisa existir para ser acreditada.
(*) jornalista
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