Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

QUO VADIS?


Por: | 23/03/2026


   Dizem os médicos que a tal da serotonina é responsável por boa parte da nossa paz de espírito. Em falta, o sujeito desanda: perde o humor, o juízo, a paciência com o vizinho e, em casos mais graves, com a própria realidade. 

  Surge então a sertralina, comprimido discreto, promessa de harmonia em miligramas, espécie de diplomata químico tentando negociar um cessar-fogo dentro da cabeça.

  Mas o curioso é que, enquanto milhões de cidadãos recorrem a esse pequeno tratado de paz interno, o mundo lá fora parece ter decidido abolir qualquer tentativa de equilíbrio. Há uma epidemia global de mau humor, que não se resume àquele azedume doméstico, de reclamar do café frio. Não. É um mau humor ideológico, musculoso, armado até os dentes de certezas absolutas e desprovido de qualquer serotonina civilizatória.

  O sujeito acorda, não toma sertralina nem café, mas engole uma dose cavalar de indignação seletiva. Sai distribuindo impropérios como quem distribui panfletos em dia de feira. Tudo o irrita: o diferente, o semelhante, o que respira e até o que pensa.

   E, como não poderia deixar de ser, encontra eco. Porque o mau humor, quando organizado, vira movimento político.

  Imagino, não sem certo deleite, uma reunião dessas lideranças de temperamento vulcânico. Todos sentados à mesa, cenhos franzidos, punhos cerrados, cada um mais convicto que o outro de que o problema do mundo é… o outro. Se um deles, por descuido ou milagre, resolvesse experimentar uma dose de serenidade — química ou não — talvez perguntasse: “E se a gente conversasse?”. Seria imediatamente acusado de fraqueza, talvez até de traição à causa do azedume universal.

   Não estou exagerando. O mau humor extremista tem isso: não admite cura. Vive da própria inflamação. É uma espécie de doença autoimune da política. O organismo ataca qualquer tentativa de equilíbrio como se fosse uma ameaça existencial.

     Enquanto isso, aqui embaixo, o cidadão comum tenta sobreviver. Divide-se entre boletos, notícias alarmantes e a busca por um mínimo de sanidade. Alguns recorrem à sertralina. Outros à fé. Há quem prefira o futebol, o samba, ou simplesmente desligar o celular - atitude hoje considerada revolucionária.

  Nós, que paramos para pensar, passamos a entender que o mundo precisa de algo mais potente que comprimidos. Não sei se se vende em farmácia, nem se tem bula. Mas suspeito que inclua uma combinação rara de bom senso, humor - daquele que ri de si mesmo - e uma leve desconfiança das próprias certezas.

   Enquanto isso não surge no horizonte, seguimos todos, cada qual com sua dosagem: uns tentando equilibrar a química interna; outros, desregulando deliberadamente a externa.

 E assim caminha a humanidade - meio deprimida, meio irritada, mas, curiosamente, ainda de pé. Uns saltitando; outros, enfiando a cabeça no chão.

(*) jornalista


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