Alessandra Del`Agnese
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SÉRGIO DE CASTRO PINTO: O ARTESÃO DO ESSENCIAL E A GRANDEZA DOS BREVES DIAS


Por: | 25/03/2026


  Existem poetas para serem ouvidos e outros para serem sentidos. Sérgio de Castro Pinto, esse paraibano de João Pessoa que transita entre a sala de aula da Universidade Federal da Paraíba e a quietude de uma vida simples dedicada à palavra, pertence a uma terceira estirpe, mais rara: a dos que escrevem para fazer pensar com os sentidos. Seu mais recente testemunho público, a coletânea Breves dias sem freio (Patuá, 2025), é muito mais do que uma reunião de poemas escolhidos entre 1967 e 2024; é a cristalização de uma ética estética. Ao folhear essas pouco mais de trezentas páginas, percebemos que não se trata apenas de um livro, mas de uma travessia a cartografia lírica de um homem que fez da concisão uma forma de resistência à ruína do tempo .

  Ao anunciar que pretende, com esta publicação, oferecer uma visão panorâmica de sua obra, Sérgio nos entrega, na verdade, as chaves de seu universo: um lugar onde o cotidiano se transfigura em epifania e onde o humor ácido convive com a ternura mais genuína . É comum que a crítica apresse-se em rotular sua poesia como "minimalista", mas essa é uma armadilha para os desavisados. Lê-lo exige a coragem de mergulhar no que o poeta tem de mais profundo. Como bem observou Linaldo Guedes, reduzi-lo a isso é coisa de quem não percebe a grandeza de uma poesia que vê além e aquém dos nossos olhos de pobres mortais . Sérgio é, antes de tudo, um poeta do essencial, um ourives que lapida cada sílaba como se ela fosse a última.

  Sua trajetória, que já lhe rendeu prêmios nacionais como o Guilherme de Almeida e o reconhecimento em antologias internacionais, é marcada por uma coerência rara . Doutor em Literatura Brasileira, pesquisador de Manuel Bandeira e Mário Quintana, Sérgio poderia ter sucumbido ao solene academicismo. No entanto, escolheu o caminho da fala, da "prosa" no sentido medieval do termo, onde a palavra é coisa viva, visceral, que "indisciplina os espíritos", como ele mesmo sugere ao citar Adolfo Casais Monteiro . Em uma época dominada pela pressa e pelo espetáculo vazio, Sérgio de Castro Pinto mantém-se firme em seu propósito: "dizer o mínimo com o máximo de impacto" . É essa fidelidade à própria pulsão lírica, essa recusa em se render ao "politicamente correto" ou às fórmulas prontas, que o coloca em um patamar de absoluta soberania na literatura brasileira atual .

    Sua vida simples, dedicada à escrita, ao magistério e à gestão do célebre Correio das Artes, reflete-se na matéria-prima de seus versos. Não há grandes epopeias ou devaneios metafísicos em sua obra. Há o pijama que se transforma em "rio-têxtil", há o bode que oscila entre a dureza da queda e a candura do balido, há o pavão vigiado por olhos voyeurs . É nesse mergulho nas entranhas do prosaico que reside sua universalidade. Ao celebrar o pequeno, ele alcança o sublime. Não é à toa que se especula, com a certeza de quem conhece o valor do que tem, que este paraibano, membro da Academia Paraibana de Letras, está entre os nomes que merecidamente poderiam figurar nas listas do Nobel. Se morasse no eixo Rio-São Paulo, sua grandeza já teria sido consagrada de forma mais ampla, mas há algo de justo na ideia de que a poesia genuína ainda habita as margens no caso, as margens do Rio Sanhauá, berço de sua geração .

  Para sentir a força dessa poesia, basta deter-se em um dos poemas mais emblemáticos do livro, "Atos falhos", originalmente publicado em O Cerco da Memória (1993) e reproduzido em Breves dias sem freio . Em apenas sete versos curtos, Sérgio sintetiza a angústia moderna do descompasso entre o querer e o ser:

sequer os ensaio.

mas os meus atos

falhos

encenam-se assim:

eles já no palco

e eu ainda

no camarim.

  Aqui, o poeta não apenas descreve a falha, mas a estrutura como um teatro da existência. A separação entre a ação (os atos falhos) e a consciência (o eu que ainda se prepara) é um corte preciso na carne do cotidiano. É a poesia como diagnóstico de uma humanidade que muitas vezes chega atrasada à própria vida. É nessa capacidade de transformar o fracasso em arte, o breve dia em eternidade, que Sérgio de Castro Pinto se afirma como um dos mestres da poesia de língua portuguesa.

    Em Breves dias sem freio, os dias correm "infrenes", como observa Mario Helio, mas a palavra de Sérgio os detém, lhes impõe a medida humana . É um livro que nos convida à lentidão, à contemplação e, acima de tudo, à celebração da linguagem "alumbra-me mais a linguagem / que descreve a paisagem / do que a paisagem / propriamente dita", confessa o poeta em um de seus apontamentos . Que possamos, então, seguir o conselho do mestre: parar, ler devagar e nos deixar iluminar por esse fogo brando, porém incandescente, de sua poesia.




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