
Durante o dia, Joaquim era “exemplo”. Bíblia embaixo do braço, a voz empostada na praça central, denunciava o pecado do mundo como se fosse a última muralha antes do apocalipse. Chamava-se a si mesmo de “servo do Senhor”. Orava em voz alta nos cultos, clamava contra a corrupção, apontava dedos contra “mulheres vadias, espíritas, ateus, comunistas”, contra quem ousasse discordar da verdade única que dizia carregar.
Mas quando a noite caía, e a cidade se recolhia ao silêncio, Joaquim se deitava sobre a mesma fronha manchada de suor e tempo. Era nela que sua mente se desprendia da aparência de “santo” para mergulhar no breu das ideias mais torpes. A fronha, macia e gasta, parecia se abrir em labirintos invisíveis. Bastava encostar a cabeça, e lá estava Joaquim tramando vinganças, arquitetando discursos de ódio, costurando narrativas que uniam Bíblia e violência em uma só língua.
Nessas noites, sua mente fervilhava como um caldeirão: sonhava em ver opositores humilhados, jornalistas silenciados, professores queimados em praça pública. Ria sozinho ao imaginar a bandeira manchada de sangue, um país ajoelhado diante de um novo messias de terno e farda. Repetia nomes como mantra: “Deus, Ordem, Família, Pátria, Liberdade”. Cada palavra vinha acompanhada de um prazer cruel, como se a fronha sussurrasse em seu ouvido e alimentasse sua sede.
De manhã, ao acordar, Joaquim estava renovado. O sorriso de quem “andara com Deus” disfarçava a noite maldita. Voltava ao púlpito, levantava as mãos, condenava o diabo — sem saber que ele mesmo já o carregava, costurado na sua rotina, impregnado em sua fronha.
Era assim que as fronteiras começaram a se misturar num só borrão. O que ele sonhava à noite, pregava de dia. O que fantasiava em silêncio, aplicava em gestos públicos. A multidão aplaudia suas palavras, sem perceber que eram ecos de seus delírios noturnos. E pouco a pouco, os fiéis passaram a compartilhar do mesmo pesadelo: repetiam suas frases, gritavam seus ódios, reproduziam seus monstros.
A realidade e o delírio se confundiam. Já não havia diferença entre púlpito e cama, entre assembleia e pesadelo. A fronha de Joaquim não estava mais só no seu quarto — ela se multiplicara em milhares de cabeças, espalhadas como praga.
E assim o dia virou noite, o sonho virou vida, e o inferno, enfim, se fez cotidiano.
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