
Houve um tempo - e não faz tanto assim - em que certas palavras chegavam batendo à porta de madrugada: ninguém queria abrir. “Guerra”, por exemplo, vinha carregada de silêncio. “Fome” tinha cheiro, tinha rosto, tinha nome. “Corrupção” provocava indignação que durava mais que um dia. Hoje, essas mesmas palavras, calmamente, atravessam a rua olhando o celular. Banalizamos.
Não de uma vez, não em um gesto brusco. Foi aos poucos, como se faz com o café: diluindo. Primeiro, a repetição. Depois, a saturação. Por fim, a indiferença. A notícia vira ruído. O espanto vira estatística. A tragédia ganha trilha sonora, vinheta e patrocinador.
Em Manaus, por exemplo, o rio sobe e desce como um velho conhecido - e é. Mas o que deveria nos alarmar, às vezes apenas nos informa. A seca histórica vira número. A cheia extrema vira imagem aérea. E seguimos, como se o extraordinário fosse cotidiano.
A culpa não é apenas nossa. O mundo acelerou a tal ponto que sentir virou um luxo logístico. Não há tempo para processar o horror entre um vídeo e outro. A dor do outro precisa competir com algoritmos. E quase sempre perde.
Isso é muito inquietante. Quando banalizamos, não só diminuímos o peso das coisas. Diminuímos a nós mesmos.
O que nos define, em alguma medida, é a capacidade de reagir. De se indignar. De se comover. De parar.
Quando tudo vira paisagem, o humano começa a desaparecer.
A filósofa Hannah Arendt percebeu isso ao observar que o mal mais perigoso não é aquele que se apresenta como monstro, mas o que se veste de rotina. O mal que não grita. O mal que cumpre expediente. O mal banal.
Sinto que seja esse o maior risco do nosso tempo: não o excesso de tragédias, mas a falta de espanto diante delas.
No dia em que nada mais nos surpreender será também o dia em que já não estaremos, de fato, aqui.
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