Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

A DEPUTADA E O ESPANTALHO


Por: | 01/04/2026


    Eu estava aqui, tomando meu café amargo como a vida, como a política, quando me deparo com mais uma pérola do nosso teatrinho legislativo. A notícia me chegou como um soco no estômago de quem ainda insiste em ter estômago: a deputada Tabata Amaral, aquela que um dia foi vendida como a “nova política”, a “menina da educação”, agora aparece como autora de um projeto que quer enfiar na cadeia quem tiver a ousadia de chamar o Estado de Israel pelo nome que muitos, ao redor do mundo, já se habituaram a usar: genocida.

Pasmem, mas não se admirem. É o Brasil, meus caros. Aqui, o circo pega fogo, mas o palhaço continua no centro da arena.

   O PL 1424/26 é uma obra-prima do oportunismo político travestido de moralismo. A proposta, fruto do mais rasteiro lobby sionista sim, posso dizer isso, pois sou uma cronista velha, e cronista velha não tem medo de espantalhos, equipara a crítica ao Estado de Israel ao crime de antissemitismo. Em outras palavras: se você, cidadão comum, assiste ao noticiário, vê crianças soterradas sob escombros em Gaza, vê hospitais bombardeados, vê uma política de expansão territorial que beira o delírio colonialista, e tem a coragem de dizer “isso é um genocídio”, você pode ser preso.

  E quem vem a público defender essa sandice? Uma jovem deputada que construiu sua carreira em cima de um discurso de racionalidade, de defesa da democracia, de “diálogo”. Mas o diálogo, pelo visto, só vale quando não se toca nos interesses de quem financia campanhas ou pauta a geopolitica de quem quer pagar de “ocidental” a qualquer custo.

    O que me dói e olha que eu, Alessandra, já não deveria sentir dor, só ironia é ver essa adesão automática, acrítica, quase religiosa, a uma causa que não é nossa. Desde quando o Brasil, esse país mestiço, miscigenado, que aprendeu na dor o que é ser refugiado da fome e da seca, precisa importar uma lei para calar a voz contra a violência de Estado em terras estrangeiras? Desde quando nossa esquerda, que antes tinha vergonha na cara e falava em soberania, em direitos humanos para todos e não apenas para os aliados do Ocidente, aplaude uma deputada que faz o jogo do aparato militar mais poderoso do Oriente Médio?

     É de um cinismo profundo. E o pior: o projeto recebeu assinaturas de deputados que se dizem de esquerda. Ah, a esquerda brasileira… Essa esquerda que já foi corajosa e hoje treme diante do politicamente correto geopolítico. Essa esquerda que se curva ao lobby estrangeiro com a mesma facilidade com que a direita se curva ao agro. Viraram todos reféns de um roteiro escrito em Washington, em Tel Aviv, em qualquer lugar menos nas periferias de São Paulo ou nos sertões do Nordeste.

    E aí me lembro de um velho samba: “de que vale ser chefe, se não pode dar ordens?” De que vale ser deputado, se você se transforma em porta-voz de interesses que não dialogam com o povo que te elegeu? Tabata, que um dia foi a promessa de renovação, agora se especializa em erguer muros onde deveria haver pontes. Ela não está defendendo judeus porque judeus são vítimas históricas do antissemitismo, e todo antissemitismo é uma chaga que deve ser combatida. Ela está blindando um Estado, um governo, uma política expansionista que, sim, mata civis em escala industrial. Confundir uma coisa com a outra é a mais pura ignorância ou a mais calculada malandragem.

    E o que vemos? Vemos um Congresso que, enquanto deveria discutir fome, educação, salário, se presta a esse papelão internacional. Vemos a democracia brasileira sendo usada como massa de manobra para silenciar vozes que incomodam poderosos de fora.

   Não, não me venham com lição de moral. Não me digam que sou antisemita por não aplaudir bombardeios em escolas. Antisemitismo é ódio a judeus. O que está em jogo aqui é ódio a palestinos. E se você não pode nem nomear esse ódio, nem criticar quem o pratica, então a democracia vira fachada.

  O que me assusta, nessa história toda, é a naturalidade. A naturalidade com que se banaliza a repressão. Primeiro criminalizam quem critica Israel; depois, quem critica o agro; depois, quem critica o STF. É a faxina geopolítica da liberdade de expressão, e tem deputado de “esquerda” assinando embaixo, achando que está moderno, que está do lado certo da história.

    Do lado certo da história está quem tem coragem de dizer, como eu digo: não à criminalização da crítica. Não ao silenciamento forçado. Não ao uso do Holocausto como escudo moral para justificar novos massacres.

     E a deputada Tabata Amaral, que aprendeu nos livros que a liberdade é o bem maior, que me perdoe, mas está fazendo o papel de carcereira da consciência alheia. E não adianta vir com discurso bonito no Instagram. Projeto de lei é documento público. A assinatura está ali, lavrada em cartório.

   No fim das contas, a “nova política” não passa da velha política de sempre: a que se vende, a que se acovarda, a que prefere prender quem denuncia a ter que explicar por que apoia tanto horror.

E eu, que já vi esse filme acontecer em tantos outros países, só posso dizer: acordem, enquanto ainda há tempo. Depois que a lei passar, não adianta chorar. Porque o crime, meus queridos, não será mais denunciar o genocídio. O crime será lembrar que um dia alguém tentou denunciar. E, como diria o poeta, “sobre a nossa liberdade, tão vigiada, e a nossa angústia, tão calada, fica o silêncio”. Mas o silêncio, esse ainda não conseguiram aprovar em plenário.

Crônica escrita sem medo de ser feliz, ou de ser presa.


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