João Batista de Brito
João Batista de Brito
João Batista de Brito

SEMANA SANTA

Por: | 03/04/2026

SEMANA SANTA

Hoje em dia Semana Santa é só um feriadão, como outro qualquer. Papai e mamãe botam a garotada no carro, e vamos à praia, curtir o mar e o sol. Se por acaso chover, vamos ao Shopping, consumir chocolate, ou a outros lugares, devorar uma pizza com coca.
Nos meus tempos era assim não, visse.
A criançada não tinha essa folga. Aliás, folga nenhuma. Não havia aula, mas em compensação, quase nada de bom era permitido. Era só reza e contrição. Não se podia brincar, nem rir, nem cantar, nem comer doce, nem ouvir rádio, nem nada que fosse divertido. Nem tomar banho era permitido.
Não se comia carne, e a alternativa era, ou peixe, ou aquele bacalhau horroroso que ficava exposto, cheio de moscas, nos balcões das mercearias do bairro. Só compensava o feijão de coco com bredo.
Um tópico obrigatório era, na verdade, o jejum. Lá em casa não sei quem fazia. Se alguém fazia era em segredo. Mas lembro bem dos mendigos: crianças de mãos estendidas, pedindo “uma comidinha pra minha mãe jejuar”. Eu achava engraçado a contradição conceitual dos termos (“comidinha” versus “jejuar”), mas, como sabemos, para a fome não existem contradições.
Era um tempo fechado, sombrio, com ou sem coincidência chuvoso, ou de céu nublado. Os santos nas igrejas ficavam cobertos de roxo, e as missas, obrigatórias, eram mais longas. O latim dos padres nos parecia ainda mais incompreensível. E claro, as penitências eram mais penosas.
As crenças impostas a nossas cabecinhas infantis inevitavelmente ficavam mais pesadas na Semana Santa. Uma em particular, que às vezes me causava insônia, era aquela segundo a qual, se a chama do sacrário no altar mor da Igreja se apagasse, o mundo acabava. Puro terror.
A cinema não se podia ir, a não que fosse para ver “A paixão de Cristo”, uma cópia velha, sobrevivente da época do cinema mudo, cuja película quebrava a cada cinco minutos, tempo de a plateia compadecida enxugar as lágrimas.
Por aqui, a programação só melhorou um pouco depois que aquela cópia antiga se gastou de vez e os cinemas da cidade passaram a mostrar filmes de conteúdo religioso mais frouxo, como “O manto sagrado”, “Demetrius, o gladiador”, “Quo Vadis”, por aí.
Para nós que éramos crianças e não simpatizámos com tristeza, o Dia de finados, por exemplo, era uma data triste, mas pelo menos era um dia só. E não impedia a gente de comer doce, nem de brincar de pega na rua, nem de ir ao cinema. A Semana Santa, como o nome diz, era uma semana inteira, até porque o tônus de tristeza já começava na segunda-feira.
Quer me parecer que, naquele tempo, a atenção recaía mais sobre o infortúnio da crucificação do que sobre a bem-aventurança da ressurreição.
Mais tarde na vida, quando comecei a ter aulas de História, e tomei conhecimento da chamada Idade Média, sem querer, erroneamente ou não, associei uma coisa à outra. Pra mim, a Semana Santa era uma Idade Média no meio do ano.
Ainda bem que, em seguida à Idade Média, vinha o Renascimento, para manter a comparação, o mito da Ressurreição, ou seja, o Sábado de Aleluia e o Domingo de Páscoa. Sim, prefiro entender que Jesus veio para nos alegrar, como proclama aquela bela e libertária composição de Johann Sebastian Bach – “Jesus, alegria dos homens”.


FONTE: Facebook - Acesse

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