Aloísio Lobo
Aloísio Lobo
Aloísio Lobo

OS ALQUIMISTAS...


Por: | 05/04/2026


   Começou como um desvio sutil de linguagem que passam despercebidos no ruído cotidiano, mas que, pouco a pouco, vão moldando o pensamento coletivo. Palavras antigas ganharam novos donos, símbolos históricos foram reciclados, e causas legítimas passaram a servir a propósitos que, outrora, combateriam com todas as forças.

   O sionismo, nascido como movimento de afirmação identitária e sobrevivência do povo judeu após séculos de perseguições — culminando no horror absoluto do Holocausto —, carregava em sua essência a busca por segurança, pertencimento e dignidade. Era, antes de tudo, um grito de existência.

   Mas a história tem ironias cruéis: aquilo que nasce como escudo pode, nas mãos erradas, tornar-se espada.

Sob a liderança de Benjamin Netanyahu, o Estado de Israel passou a ser conduzido por uma lógica que extrapola a autodefesa e adentra o território da punição coletiva, da ocupação permanente e da militarização como linguagem política dominante. Não se trata apenas de estratégia de segurança — é um projeto de poder sustentado por medo, por narrativas absolutas e pela desumanização do outro.

     E é justamente nesse ponto que o espelho se torna desconfortável. O nazismo clássico construiu sua máquina sobre a ideia de pureza, de inimigo interno e externo, de um “nós” ameaçado que precisava reagir com força total. 

   Hoje, o que se observa em determinados discursos políticos — não apenas em Israel, mas também nos Estados Unidos sob a influência de Donald Trump, e no Brasil, com a extrema-direita local na experiência derrotada eleitoralmente em 2022 — é a reedição desses mecanismos, ainda que com novas roupagens.

    Não se trata de uma cópia histórica literal, mas de uma apropriação funcional: o uso do medo como política de Estado, a construção de inimigos permanentes, a legitimação da violência como resposta automática e a transformação de qualquer crítica em ameaça existencial.

O mais inquietante, porém, é a aliança improvável que se forma nesse cenário.

   Setores da extrema-direita global, muitos deles historicamente associados a discursos antissemitas, passaram a abraçar um sionismo instrumentalizado — não por empatia ao povo judeu, mas por convergência de interesses. Israel torna-se, nesse imaginário, um laboratório de controle, vigilância e repressão, admirado por aqueles que defendem fronteiras fechadas, estados fortes e sociedades hierarquizadas.

 É um casamento de conveniência, não de valores. A política externa americana recente reflete esse alinhamento. Sob Trump, Jerusalém foi reconhecida como capital de Israel, rompendo consensos diplomáticos históricos.

    Assessores próximos, muitos com vínculos ideológicos ou religiosos com o sionismo mais radical, ajudaram a consolidar uma visão de mundo onde conflitos complexos são reduzidos a narrativas simplistas de bem contra mal.

Nesse contexto, a crítica torna-se heresia.

   Questionar ações do governo israelense passa a ser confundido, deliberadamente, com antissemitismo. É uma estratégia eficaz: silencia o debate, constrange opositores e protege decisões políticas sob o manto de uma dor histórica real, mas instrumentalizada.

   E assim, o que deveria ser memória vira ferramenta. A tragédia do passado, que exigiria vigilância constante contra qualquer forma de opressão, acaba sendo invocada para justificar novas formas dela. 

  O sofrimento ancestral é convertido em capital político, enquanto o presente se enche de ruínas humanas que raramente encontram espaço no discurso oficial.

E isso se torna profundamente perturbador quando vítimas históricas são colocadas — ou se colocam — na posição de algozes contemporâneos. Não por identidade, mas por escolha política.

     Este é o ponto mais delicado dessa reflexão: não é o sionismo em sua origem que se confunde com práticas autoritárias, mas a sua captura por projetos de poder que operam sob lógica semelhante àquilo que, um dia, juraram combater.

A história não se repete — mas, às vezes, aprende rápido demais a se disfarçar.

(*) jornalista


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