Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese
Alessandra Del`Agnese

TRÊS VEZES O AMOR, OU O ENSAIO PARA A SOLIDÃO


Por: | 08/04/2026


     Houve um tempo em que eu acreditava que casamento vinha com data de validade gravada a ouro na aliança. Não, não estou falando de contratos de gaveta ou de paixões que se esgotam como pilhas falo daquele prazo tácito que a vida impõe às nossas teimosias afetivas.

    O primeiro durou dez anos. Ah, o primeiro... Fui jovem, vesti o véu como quem veste uma fantasia de rainha por um dia. Ele me deu filhos lindos, esses sim eternos, e um aprendizado bruto sobre divisão de tarefas e noites sem sono. Terminou como terminam as coisas que começam sem a gente saber bem por quê com um suspiro e duas malas no corredor. Mas os filhos ficaram. Eles são a única bodas de diamante que realmente conquistei.

   O segundo foi em Lisboa, numa tarde tão ensolarada que até as pedras da calçada brilhavam. Um português de bigode cuidadoso e sotaque que me fazia rir só de me chamar de “minha querida”. Dez anos também. Uma década de bacalhau na sexta, de verões no Algarve, de aprender que o amor pode ser manso como o Tejo e tão imprevisível quanto suas cheias. Acabou sem barulho. Apenas um dia ele disse “pronto”, e eu entendi. Pronto.

    O último foi o que me doeu em forma de lição. Cinco anos que pareceram cinco séculos. Narcisismo não é amor, é um espelho que anda ao seu lado e só reflete a si mesmo. Cuidado com quem fala demais de si na primeira noite. Ali aprendi que solidão não é ausência de companhia é presença de alguém que te anula. Quando saí, respirei fundo como quem emerge de um naufrágio. E jurei: nunca mais.

   Mas o que sou eu, senão uma sonhadora incurável? Porque no fundo, no fundo, ainda queria aquilo que minha avó teve: as bodas de diamante. Sabe? Aquele casamento que envelhece junto, que ri das mesmas rugas, que briga pelo controle remoto e dorme de mãos dadas. O amor que dura tanto que vira paisagem você nem repara mais, mas não vive sem. Meu sonho era esse. Um contrato com o tempo, uma aposta na eternidade.

   Hoje, no entanto, me descobri mais sábia ou mais covarde não sei. Prefiro o meu silêncio. A xícara de chá que não precisa ser dividida. O livro que posso largar no meio sem culpa. A cama onde os lençóis amanhecem só com o meu contorno. Há uma elegância na solidão que os casamentos apressados não conhecem. Uma delícia amarga de não precisar explicar o dia que tive.

   Mas confesso: às vezes, numa fraqueza irônica, ainda fantasiou as bodas de prata. Imagino os convites, um brinde ao véu e à grinalda com champanhe e música de orquestra. Sorrio sozinha no meu apartamento. Porque no fim, caríssimos, casamento não é tempo contado. É qualidade de ilusão. E eu, que já tive três, aprendi que o melhor casamento talvez seja aquele que a gente faz consigo mesma. Com direito a lua de mel eterna.

   Brindo, então, a mim. E a você, que ainda procura. Que encontre. Ou que não. Que a vida, afinal, é uma crônica de afetos uns longos, outros curtos, todos intensos enquanto duram.

Assinado com a caneta-tinteiro e um riso de quem já não espera mas ainda sonha.




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