
Existe uma ferida no mundo que não cicatriza, não por falta de tempo, mas por excesso de repetição. Chama-se Nakba palavra árabe que quer dizer “catástrofe”, mas que para os palestinos soa como um parto às avessas: o nascimento de uma nação pelo golpe que a expulsa do próprio útero. Enquanto Israel celebra sua independência em 1948, 700 mil palestinos são jogados para as margens da história, como restos de um naufrágio que ninguém quis socorrer.
E o que faz um povo sem terra? Faz literatura.
A política da memória, como bem notou Ricardo Lísias na piauí, não é apenas um exercício de saudade. É um ato de resistência. Escritores palestinos de Ghassan Kanafani a Mahmoud Darwish, de Adania Shibli a Susan Abulhawa não escrevem para embelezar o passado. Escrevem como quem junta cacos de um espelho para devolver o rosto ao mundo. Cada poema é um documento de posse. Cada romance, um título de propriedade.
Eu digo: “O que me assusta não é o ódio, é a indiferença com que tratamos o sofrimento alheio”. Porque enquanto ocidentais discutem se a memória palestina é “tendenciosa”, os escritores de Gaza e da Cisjordânia produzem uma obra que dialoga com Primo Levi, com o realismo sujo de Bukowski e com a ternura ferida de Clarice. Não é vitimismo. É humanismo à força bruta.
Lembro de Homens ao Sol, de Kanafani: três palestinos tentam atravessar a fronteira escondidos num tanque de água. Chegam ao Kuwait mortos por asfixia. O motorista, ao abrir o compartimento, sussurra: “Por que não bateram na tampa?” E o leitor entende: a pergunta não é sobre metal, mas sobre o silêncio do mundo.
A Nakba não é uma data. É um tempo contínuo. Cada nova guerra, cada demolição de casa em Silwan ou Hebron, cada oliveira arrancada é uma mini-Nakba. A literatura palestina, nesse sentido, não é apenas memória: é profecia ao contrário. Ela não prevê o futuro; recusa-se a deixar o passado morrer.
E enquanto houver uma criança em Rafah aprendendo a escrever versos entre os escombros, a política da memória vencerá a política do esquecimento. Porque, como já disse Darwish: “Se as oliveiras fossem arrancadas do chão, suas raízes continuariam a cantar”.
A crônica, afinal, é isso: um gênero menor para as maiores dores. E vou completar com meu humor amargo: “Sabe qual é o problema do Oriente Médio? É que todo mundo quer ser vítima, mas poucos querem ser testemunha.”
Pois a literatura palestina nos obriga a sentar no banco das testemunhas. E isso, meu caro, incomoda mais do que qualquer bomba.
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