Ensaios Irreverentes
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BORBOLETAS

Por: Clemente Rosas | 19/04/2026

BORBOLETAS

                                 Clemente Rosas

Peço desculpas por falar de amenidades em uma Revista Eletrônica tão bem qualificada pela excelência dos seus colaboradores. São especialistas de todos os matizes: teóricos de relações internacionais, mestres da diplomacia, cientistas políticos, economistas de respeito, juristas abalizados, cultores do pensamento filosófico, e, como cereja do bolo, um chargista criativo e irreverente.  Assim, percebo que tudo o que poderia dizer, sobre qualquer dos campos aqui referidos, não seria melhor do que o que eles, que me honram com sua amizade, já vêm dizendo.  Recolho-me, portanto, às contemplações do meu recanto, e arrisco um texto que tem apenas a pretensão de servir de refrigério às altas reflexões que os trabalhos da nossa Revista têm motivado.

Falo de borboletas. E logo confesso o pecado de tê-las omitido em crônica aqui publicada, e constante do meu livro “Sonata de Outono”, com o título de “Amigos Alados”. Só falei de passarinhos.  Agora, por um evento que reputo extraordinário, corrijo a falha, pois sempre tenho contado com elas a enfeitar o meu jardim: brancas, amarelas, azuis, cor de cobre, até com manchas vermelhas nas asas. Mas vamos ao tal fato extraordinário.

Numa manhã recente, para minha grande surpresa, eu as vi, algumas, negras. Leves, de voo incerto, vagando entre as flores. Não eram “borboletas vespertinas”, como as mencionadas pelo poeta Jorge de Lima, em seus conhecidos versos do livro “Invenção de Orfeu”, que eram na verdade mariposas: pesadonas, feias, incomparáveis às borboletas diurnas. Pela notoriedade do famoso autor de “Nega Fulô”, transcrevo aqui, de memória, as estrofes do Canto I – XVIII:


Éguas vieram à tarde, perseguidas,

Depositaram bostas sobre as vides

Logo após borboletas vespertinas

Gordas e volumosas como urtigas


Sugar vieram o esterco fumegante

Se as vísseis, vós diríeis que o composto

Das asas e dos restos eram flores

Porque parecem sexos.  Nesse instante


Os mais belos centauros do Alto Empíreo

Pelas pétalas desceram atraídos

E agora debruçados formam círculos

Depois as beijam como beijam lírios.


Com toda reverência ao grande poeta que, com sua visão surrealista, conseguiu extrair poesia do esterco, numa demonstração suprema de criatividade, quero afirmar que minha convivência com as mariposas vem da infância. As grandes lagartas coloridas (alaranjadas e com traços negros), que apareciam nos pés de fícus na frente de nossas casas de praia, eram, por nós meninos, postas “de resguardo”, para virarem borboletas. E quando as crisálidas se formavam, à feição de charutos, brincávamos com elas: “adivinhão, adivinhão, você gosta de mim ou não?”  Os pobres seres, em metamorfose, giravam ou curvavam as “cabeças” em resposta. E quando a transformação vinha a termo, com ela vinha também a decepção: eram mariposas horrorosas, grotescas, como as imaginadas pelo poeta, que chamávamos de carochas ou bruxas. E chegávamos à triste conclusão: quanto mais belas as lagartas, mais feias eram as criaturas delas emergentes.

E volto às minhas borboletas negras com uma especulação sombria: seriam elas presságio das turbulências que estamos vivendo em nosso país e no mundo, como um alerta emblemático de tragédias – ecológicas, políticas, sociais - que, aparentemente, não estamos conseguindo evitar?  Mas prefiro esconjurar tais avantesmas, e esperar que elas não voltem. E devolvam o espaço do meu jardim às asas coloridas que o têm regularmente enfeitado.



FONTE: Revista - Acesse

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