Por: | 20/04/2026
Letra Lúdica
Hildeberto Barbosa Filho
Diários
Tenho obsessão por diários. Mal acabo a leitura de um, adentro outro, sem contar aqueles passeios que faço aleatoriamente por alguns diários que amo, lidos e relidos a vida inteira.
Por exemplo, o de Amiel, o dos irmãos Goncourt, o de Camus, o de André Gide, na esfera francesa, assim como os diários de Miguel Torga, Vergílio Ferreira, Lúcio Cardoso, Josué Montello, Walmir Ayala e Ascendino Leite, em língua portuguesa, constituem, entre outros, diários de minha predileção. Papini, Kafka, Ricardo Piglia, Virgínia Woolf, Dostoiévski, Tolstoi são nomes que me ocorrem na singularidade dessa seara estilística. Tenho seus diários como faróis que iluminam regiões obscuras da alma humana.
Concluo agora a leitura do Diário de um gênio, de Salvador Dali, e começo, já, a rastrear as páginas do Diário de Sylvia Plath. Duas vozes distintas em campos distintos de atuação.
Dali não é somente um pintor genial, mas também um escritor de palavra forte, insólita e original. Se o método crítico-paranóico, que parece deflagrar o universo caleidoscópio e surreal de suas telas, aciona o fluxo de seu processo de criação na órbita pictórica, também move a ordem dos vocábulos na composição de sua escrita.
Não deixa de ser curioso e excessivo, no entanto, o ritmo de suas idiossincrasias, de seus estalos narcísicos, de sua megalomania, de suas blagues e boutades desconcertantes. Faz contrapeso, contudo, a certos disparates, a série de observações que o escritor desenvolve acerca das artes e de seus atores, em lances analíticos em tudo desafiador e estimulante. Salvador Dali é um escritor genuíno. Escreve como um poeta.
Dali é um gênio que se auto-idolatra em cada página, colocando-se acima de seus pares e ombreando-se com Deus. Porém, diz coisas impressionantes e de maneira impressionante. Conteúdo e forma se entrelaçando na força verbal de seu pensamento criador. Sublinho, ao acaso, uma das passagens que me toca profundamente: “Os erros têm quase sempre um caráter sagrado. Nunca tente corrigi-los. Ao contrário: racionalize-os, compreenda-os integralmente. Depois disso será possível sublimá-los. As preocupações geométricas tendem para a utopia e são desfavoráveis à ereção. Aliás, os geômetras têm poucas ereçoes”.
No Diário de Sylvia Plath, detenho-me nos
primeiros registros, grifando certas frases que parecem dar o tom agudo e penetrante de suas dilaceradas reflexões. Ainda muito jovem, a poeta norte-americana, diz coisas assim, em algumas entradas do mês de julho, de 1950: “Talvez eu nunca seja feliz (...) Nada é real, exceto o presente, e mesmo assim já sinto o peso dos séculos a me esmagar”.
Quem assim escreve é uma adolescente de 18 anos. Suas palavras iniciais sinalizam para o abismo de suas páginas. Vou ler devagar, certo de que um mundo estranho e fascinante me espera.
(Publicado, ontem,19 de abril, em A União)