
Não dá para fazer uma crítica séria à obra de Zezé Di Camargo confundindo-a com o valor do sertanejo como expressão popular. Uma coisa é o gênero — profundamente enraizado na experiência brasileira —, outra é o que ele fez com esse gênero.
O que o sertanejo tem de grande (e que ele não acompanha)
O sertanejo, sobretudo em sua matriz caipira, é economia poética, narrativa, precisão emocional. Pense em Tião Carreiro ou Tonico & Tinoco: ali há ritmo próprio (cururu, pagode de viola), invenção harmônica dentro da simplicidade, e uma lírica que nasce da terra, do trabalho, da perda — sem ornamento excessivo.
Onde Zezé empobrece a forma
1. Redução temática à caricatura do amor
O repertório de Zezé estreita o universo sertanejo a um romantismo previsível: abandono, traição, reconciliação. Não há paisagem social, não há campo simbólico ampliado — apenas variações da mesma dor sentimental. É a repetição como método, não como estilo.
2. Harmonia funcional sem risco
As canções orbitam progressões básicas, desenhadas para não surpreender. A previsibilidade vira regra: introdução suave, verso contido, refrão explosivo, modulação calculada. Funciona — mas não acrescenta. É música que evita qualquer aresta.
3. Arranjo como maquiagem emocional
Cordas sintéticas, teclados aveludados, crescendos artificiais. O arranjo tenta fabricar profundidade onde a composição não sustenta. Em vez de silêncio e espaço (marcas do sertanejo raiz), há preenchimento constante, como se o vazio fosse proibido.
4. Interpretação hipertrofiada
Zezé canta como se cada verso fosse um clímax. O resultado é a inflação do sentimento: tudo é máximo, logo nada é. A emoção perde gradação, vira um contínuo de intensidade que, paradoxalmente, anestesia.
5. Submissão total ao mercado
Ao lado de Luciano Camargo, ele consolida um sertanejo industrial, pensado para rádio e repetição massiva. Não há risco estético porque o produto não pode falhar. É eficiência comercial elevada a princípio criativo.
O veredito
Zezé Di Camargo não empobrece o sertanejo porque o gênero seja limitado — ele empobrece ao escolher sempre o caminho mais fácil dentro dele. Sua obra é funcional, eficaz e amplamente consumida, mas artisticamente conservadora, repetitiva e dependente de fórmulas.
E, ainda assim, o sertanejo sobrevive — e até floresce — apesar disso. Porque sua força não está em um intérprete, mas na memória coletiva de um país que sabe cantar sua própria história.
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