
O 25 de Abril, sim, o 25 de Abril, esse dia que se cola à pele como um suor frio, um cheiro a pólvora e a cravo, um cravo vermelho, sim, vermelho como o sangue que não correu, ou correu por dentro, nas veias da memória, nas artérias do esquecimento, um cravo que Celeste Caeiro, essa mulher anónima, ofereceu aos soldados, aos capitães, aos rapazes com a guerra nos olhos e o cansaço nas mãos, mãos que seguravam espingardas e, de repente, seguravam flores, flores que eram a promessa de um país que acordava, ou tentava acordar, de um sono profundo, um sono de quarenta e oito anos, um sono de ditadura, de PIDE, de censura, de lápis azul, de silêncio, um silêncio que pesava mais que as palavras, mais que os gritos, um silêncio que se ouvia nas casas, nas ruas, nas almas, um silêncio que a "Grândola, Vila Morena" veio quebrar, veio rasgar, veio incendiar, uma canção que era um hino, um grito de liberdade, um sussurro de esperança, uma melodia que se entranhava nos ossos, nos nervos, na pele, uma melodia que era o prelúdio de um novo tempo, um tempo de incerteza, de euforia, de desilusão, um tempo que ainda hoje nos persegue, nos questiona, nos assombra, e que eu, brasileira de nascença, mas com o sangue a sussurrar nomes de avós portugueses, só vim a sentir na pele anos depois, quando o Atlântico já não era uma barreira, mas uma ponte, e Portugal, a minha casa.
E a guerra, sim, a guerra colonial, essa ferida aberta, essa chaga que não cicatriza, essa memória que se recusa a morrer, a guerra em Angola, em Moçambique, na Guiné, os rapazes que voltavam, ou não voltavam, com os olhos vazios, com as almas perdidas, com os corpos marcados, marcados pela violência, pela injustiça, pela loucura, uma loucura que se estendia por terras distantes, por paisagens exóticas, por vidas roubadas, uma loucura que era o espelho da loucura que se vivia cá, no pequeno jardim à beira-mar plantado, um jardim que era uma prisão, uma jaula, um labirinto de medos e de segredos, segredos que a PIDE guardava, segredos que a censura escondia, segredos que a ditadura enterrava, enterrava fundo, para que ninguém os encontrasse, para que ninguém os desenterrasse, para que ninguém os lembrasse, mas a memória, sim, a memória é teimosa, é persistente, é um rio subterrâneo que corre por debaixo da terra, por debaixo do esquecimento, um rio que um dia, sim, um dia, transborda, inunda, arrasta tudo, arrasta as mentiras, arrasta as verdades, arrasta as vidas, arrasta as mortes, arrasta o passado, arrasta o presente, arrasta o futuro, um rio que é o 25 de Abril, um rio que é Portugal, e que eu, de longe, ouvia ecos, histórias contadas em voz baixa, sussurros de um passado que também era meu, mesmo que eu não o tivesse vivido, um passado que me chamava, que me esperava, do outro lado do mar.
Os capitães, sim, os capitães de Abril, esses homens que ousaram sonhar, que ousaram acreditar, que ousaram agir, homens que eram soldados e eram poetas, eram revolucionários e eram idealistas, homens que queriam um país diferente, um país mais justo, mais livre, mais humano, um país que fosse de todos, para todos, por todos, um país que se libertasse das amarras do passado, das correntes da opressão, das sombras da ignorância, um país que respirasse, que vivesse, que sentisse, um país que fosse, finalmente, Portugal, um Portugal que ainda hoje procuramos, que ainda hoje construímos, que ainda hoje sonhamos, um Portugal que é a nossa herança, a nossa responsabilidade, o nosso destino, um destino que se escreve a cada dia, a cada gesto, a cada palavra, a cada silêncio, um silêncio que já não é o silêncio da ditadura, mas o silêncio da reflexão, da contemplação, da esperança, um silêncio que é o eco do 25 de Abril, um eco que ressoa em cada um de nós, em cada português, em cada ser humano que acredita na liberdade, na justiça, na dignidade, um eco que é a voz de um povo que se levantou, que se ergueu, que se libertou, um eco que é a crônica de um dia que mudou tudo, um dia que ainda hoje nos fala, nos interpela, nos transforma, um dia que é o 25 de Abril, o cravo e a ferida aberta, a memória e o esquecimento, a esperança e a desilusão, a vida e a morte, Portugal, e que, para mim, vinda de tão longe, se tornou a raiz mais profunda, a história mais íntima, a liberdade mais sentida, a minha própria revolução pessoal, um reencontro com um passado que, afinal, sempre me pertenceu.
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