
O tempo caminha por fora, como quem risca a parede de uma casa alheia. Passa pelos calendários, dobra os anos, acumula datas, mas não encontra morada certa dentro de quem se esquece do espelho.
Há um corpo que muda, é verdade, mas ele parece pertencer a outra história, como uma roupa que vai se ajustando sem pedir licença. A pele aprende novos mapas, os cabelos escrevem silêncios, as mãos guardam pequenas memórias de tudo o que tocaram.
Ainda assim, por dentro, nenhuma ruga se instala.
Permanece um território intacto, onde a infância não foi embora, apenas se acomodou em um canto mais quieto. Ela respira nas distrações, nas vontades repentinas, na forma de olhar o mundo como se ainda fosse a primeira vez. O espanto não envelhece.
A ausência do espelho é uma espécie de liberdade. Sem ele, o tempo perde autoridade, fica sem prova, sem testemunha. Torna-se apenas um rumor distante, uma conversa dos outros sobre algo que não se confirma na própria pele sentida por dentro.
Vive-se, então, nessa dobra curiosa: o mundo segue marcando horas, enquanto o íntimo se recusa a acompanhá-las. Insiste uma juventude que não depende do rosto, nem da firmeza dos passos, mas daquilo que não se mede, como núcleo invisível que resiste para permanecer inaugural.
Assim, o envelhecer acontece como uma notícia que chega sempre de fora, nunca como experiência plena. Dentro, tudo ainda começa.
(*) jornalista
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