
Há em mim uma mulher feita de abismos e auroras,
uma criatura que aprendeu a bordar claridade
com os fios gastos da noite.
Não me vês inteira quando sorrio
meu riso é apenas a janela,
a casa verdadeira arde por dentro.
Trago o peito aberto em lírios brancos,
não como quem se oferece,
mas como quem revela a própria guerra:
cada pétala nasceu de uma ferida
que escolheu perfumar o mundo
em vez de apodrecer na sombra.
Sou dessas almas que apanham do tempo
e devolvem ao tempo uma canção.
Carrego nos pulsos as marcas
de portas que empurrei sozinha,
de adeuses que me cortaram os dedos,
de silêncios que mastiguei
para não morrer de grito.
Há um pássaro em mim sem asas,
e ainda assim ele voa.
Voa porque desconhece a derrota,
porque fez do vento imaginação,
porque transformou queda em caminho
e cárcere em horizonte.
Quantas vezes me quiseram chão,
tapete, espera, moldura,
e eu, secreta e inteira,
crescia raiz embaixo das pedras,
rasgando a dureza do mundo
com a paciência feroz das sementes.
Não me confundas com delicadeza apenas.
A rosa também traz espinhos
e o mar beija enquanto afoga.
Sou ternura, sim
mas ternura de quem atravessou incêndios
carregando água nas mãos.
A poeta que me habita
não escreve versos:
sangra alfabetos.
Cada palavra sua vem úmida de destino,
cheira a terra molhada,
a ventre, a relâmpago,
a infância perdida e resgatada no susto.
Quando amo, não amo pouco.
Abro janelas no impossível,
acendo velas dentro das ruínas,
faço jardim em desertos alheios.
Meu amor não pede licença:
entra descalço,
cura o que encontra,
e às vezes se fere salvando.
Sou mulher de carne, de fé, de vertigem.
Tenho cansaços antigos
e esperanças recém-nascidas.
Se tombam meus joelhos,
minha alma permanece de pé.
E aquele que me ler de verdade
não verá somente uma mulher
verá um continente.
Um campo de batalhas vencidas em silêncio.
Uma fonte escondida entre pedras.
Um céu insistindo em nascer
mesmo depois da noite.
Porque há mulheres que vivem.
E há mulheres que, vivendo, criam mundos.
Eu sou dessas:
trago um pássaro sem asas no peito
e mesmo assim
todos os dias
aprendo a voar.
Por mim, para mim.
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