Renato Uchoa
Renato Uchoa
Renato Uchoa

SOMENTE A VERDADE OFENDE


Por: | 10/05/2026


“Somente a verdade ofende. Eis a que se deve o medo, que muitos têm de tomar consciência do que representam” (Lênin)                            

                                              

    No arrastar do final da década de 1960, mãe Conceição armou uma arapuca pra causar um abalo sísmico. Época que as/os da minha geração, sem exceção, no mínimo 12 flechadas do maldito cupido. Acredito, não obstante os bons e belas professoras/professores, nos terem ensinado com afinco, dedicação, e batida estridente da régua na mesa, os caminhos exuberantes dos cachos de letras e números; o nosso grande amor pela escola tinha um outro endereço, o fogo da paixão adolescente, que nos movia.

    Lembro de todas e todos. Professora Francisca Teresa nos mostrou o mundo através dos mapas, e no princípio a prova se desenvolvia no quadro. O ouvido, as orelhas tremiam como cata-vento, o momento da pronúncia não esqueceremos nunca. “Zé Renato compareça ao quadro, mostre-me a pequena, a minúscula Ilha da Groenlândia”.   Maldita Ilha, morríamos afogados em plena terra. Eu, nós todos/as, ciscava, esfregava o dedo no mapa, acuado que nem preá no fojo, pra cima, pra baixo e nada de encontrá-la. Imagine o tamanho da Ilha da Groenlândia, aí você entenderá. Dissecamos todos mapas, nos preparamos, e tome dez.

    Mãe Conceição encomendou uma promessa pra Santo Antônio, meu padrinho de crisma, o que acreditavam ter salvado o Geraldinho, no escalar de um guarda-roupa, foi literalmente achatado. Foram 10 missas das seis da manhã. E não vá não.“  Um belo dia, Mãe Conceição arremessa os olhos verdes lindos, no acordar dos galos e diz: “Renatinho vamos à Casa Paroquial, tenho que falar com Padre Izaque sobre umas novenas, e você sabe que o café de lá, bolo de farinha de goma do jeito que você gosta” Agora, Conceição. Padre Izaque chegamos, o grito de mãe Conceição é a senha. 

    O movimento da batina abre o espaço, uma figura negra exuberante, fala pausada. Todos eles estudam a cultura popular e erudita, base da formação do clero. A benção padre, “Deus te abençoe”. A mesa farta, nata, cuscuz de milho, de arroz, bolo de sal..., sem saber eu estava sendo conduzido para o matadouro, mas, com a pança cheia. Tudo combinado. Mãe alega que vai falar com uma senhora que morava perto. 

    A Travessia do deserto se inicia, café fumegante, bolo de farinha de goma delicioso, “coma meu bichinho,” uma aula bem concatenada pro bote ser dado. O grande final, após a palestra sobre solidariedade, obediência aos pais, respeito ao criador, aos mais experientes, pelo tempo de vida, padre Izaque joga o laço no meu pescoço. “Pense bem”, e pergunta, “quem soltou o Satanás de dentro da Garrafa?”  A resposta correta, à época, uma agressão da cultura machista, era dizer: foi a mulher. Um turbilhão, por um segundo, apascenta, espinha meu juízo, será que ele sabe que eu comi as hóstias da sacristia? Padre Mateus entregou todo mundo? Eu sei, ganho tempo, quando Conceição chegar falo na bucha. Diz ele, “Conceição?” Você não a chama de Mãe?” Chamo sim, mãe gosta quando falo assim. Uma espera angustiante, valei-me meu padrinho Santo Antônio, tanja Conceição pra cá, nunca mais reclamo de uma promessa. Já quero encomendar duas.

    Escuto a risada de Conceição rasgando, esfolando o vento de alegria. Pegamos o cabra, deve ter dito no percurso. “Cheguei, a conversa foi boa?” Padre Izaque responde, Renato quer concluir a indagação na presença de todos, vou repetir: Renato quem foi que soltou o satanás de dentro da garrafa?” Sem pestanejar, olhei pros olhos verdes de Conceição e disse, fui eu que soltei o bicho. Conceição delicadamente faz um carinho na minha orelha, até mais padre Izaque, digo eu, benção, e vamos embora. Conceição adianta o passo e enche o universo de riso, 400 metros de gargalhada ininterrupta. Conceição eu te amo.

     Eu assumo que, à época, eu soltei o Satanás de dentro da garrafa, assumo que a vida toda lutei pelas camadas subalternas, assumo que só não ajudo quem tá necessitado se não puder, assumo que eu e milhares de companheiras/os fundamos o PT independente do Estado e dos patrões, assumo que a burocracia planejada destruiu uma das melhores propostas de organização partidária através de núcleos por bairro, categorias, assumo que o PT se transformou em um partido viciado em urna eleitoral..., o que justifica os acordos sem princípios e programas. Assumo que publiquei 2 livros em defesa de Dilma e Lula.

     



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